O dramaturgo e diretor alemão Bertold Brecht (1898-1956) despertou a consciência do espectador para os problemas sociais e políticos de seu tempo com tal veemência que até hoje seus escritos exercem grande influência no trabalho dramatúrgico em todo o mundo. Além da extraordinária obra teatral, relevante obra poética, relatos e teorias teatrais, Brecht começou a escrever seus diários bastante jovem, aos 15 anos, mas de maneira bastante dispersa. Estes eram manuscritos e só a partir de 1938, aos 40 anos, ele se dedicou a anotar seu diário de trabalho, e neles persistiu até julho de 1955.
Os diários de Brecht retratam, em parte, os anos que passou exilado, fugindo do nazismo, primeiro na França e depois, sucessivamente, na Dinamarca, Suécia, Finlândia e Estados Unidos, de onde saiu em 1947, ameaçado pelo macarthismo, para fixar-se em Berlim Oriental, onde viveu até morrer em 1956.
A editora Rocco lança no Brasil o primeiro volume desses importantes diários, ''Diário de Trabalho Bertold Brecht'' no período que compreende 1938 até 1941. Ainda serão lançados os anos na América (1941-1947), na Suíça e Berlim (1947-1955).
Nesse período, Brecht escreveu suas peças mais significativas: ''Mãe Coragem'', ''Terror e Miséria no Terceiro Reich'', ''O Sr. Puntilla e seu Criado Matti'', ''A Alma Boa de Sé-Tsuan''. Nesses escritos, a princípio era de trabalho, Bertold Brecht também fala de suas preocupações com a saúde de sua mulher e a própria saúde (''leve ataque de ciática, suficientemente desagradável para me impedir a trabalhar''), as inquietações literárias, como a busca pela concisão (''a inflação é a morte de toda economia''), além de refletir sobre a ascensão do nazismo. Paralelamente, o dramaturgo fala da de seus companheiros de exílio, de sua família e do momento político da Europa da época.
No campo filosófico, Brecht reflete sobre a procura do homem novo, conceito-chave dos ideais socialistas. ''Na realidade, o homem novo é o homem velho em novas situações'', diz. Uma curiosidade da edição brasileira do ''Diário de Trabalho de Brecht'' é uma sequência de fotos de Adolf Hitler dançando uma giga para comemorar uma vitória.
Serviço
''Diário de Trabalho Bertold Brecht'', Volume I (1938-1941), Editora Rocco, 218 páginas, R$ 27,00)


Sobre o papel da empatia no teatro não-aristotélico: a empatia aqui é uma aferição do ensaio, é precedida pela preparação do papel (o ator seleciona todas as falas, tarefas, reações, de modo a se sentir confortável nelas, embora nesta etapa não crie um personagem determinado, mesmo que absorva uma ou duas características gerais). Em seguida, basicamente um salto de cada vez, vem a criação do personagem (aqui ele recorre à experiência, copia certas pessoas, combina traços de diversas pessoas etc.) A preparação do papel pode ser concluída pela empatia do ator, em primeiro lugar com as situações (como ele mesmo se comportaria em tal ou qual situação). Ao criar o personagem, ele pode ter em vista nova empatia, desta vez com a pessoa que ele quer representar, ou copiar. Entretanto, essa empatia também é apenas uma etapa, uma medida que se destina a ajudá-la a ter uma compreensão mais completa de um tipo. É importante aqui a empatia alcançada não incorpore elemento algum de sugestão, isto é, não leve o público a sentir empatia também. Isso é difícil, mas possível. Para um ator de teatro atual ter empatia e induzir o público a tê-la são coisas idênticas, é claro. Ele acha difícil imaginar uma sem a outra, ou pôr em prática uma sem a outra. Na realidade, as duas medidas ocorrem separadamente, e combiná-las é uma arte em si. Não a arte. O ator de hoje não consegue imaginar a obtenção de efeitos sem empatia, nem efeitos sem sugestão.
Trecho do livro ''Diário de Trabalho - Bertold Brecht'', datado de 11.1.41

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