OS POETAS DOS ANOS 60
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de novembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
A geração 60 alcança, enfim, a visibilidade. Espremida entre o cerebralismo dos concretos e a versalhada lúdica dos marginais, a safra de poetas surgida nos anos loucos parece entrar agora no panteão das experiências coletivas catalogáveis.
É o que se vê na homenagem prestada pelo cineasta Ugo Giorgetti em seu documentário Uma Outra Cidade, exibido no último sábado pela TV Cultura, e no lançamento do volume Antologia Poética da Geração 60 pela editora Nankin. Mas que laços, afinal de contas, aglutinam poetas tão distintos como Roberto Piva, Orides Fontella e Rubens Rodrigues Torres Filho além da óbvia ligação etária?
Para Carlos Felipe Moisés e Álvaro Alves de Faria, organizadores da antologia, a resposta estaria menos numa eventual unidade estética do que nas circunstâncias que propiciaram sua aparição no panorama poético da época. Eles apontam a Coleção dos Novíssimos, uma série de títulos de poesia editada a partir de 1960 por Massao Ohno, como o núcleo catalisador em torno do qual gravitam os poetas elencados no livro.
A série galvanizou a geração escrevem. Foi a partir dela que Piva, Cláudio Willer, Rodrigo de Haro e outros poetas despontaram para um público mais amplo. A Antologia vai buscá-los lá, rastreando seus primeiros passos num período efervescente em que a boêmia e a cultura ainda se fundiam. A revisão se restringe a autores surgidos em São Paulo, embora três sejam catarinenses, dois cariocas e um fluminense.
No posfácio, Cláudio Willer reconstitui o ambiente da época. Mas a antologia não se limita à produção sessentista. Chega até nossos dias acompanhando os trabalhos posteriores dos poetas, mesmo porque muitos deles só viriam a realizar mais adiante a porção substancial de sua obra. O painel abrange inclusive poemas publicados no verão passado.
Ao todo, são 132 livros representados na coletânea. A geração 60, contudo, não constituiu um movimento no sentido de se guiar por uma plataforma comum de criação. Houve tentativas isoladas, que resultaram em subgrupos ou círculos de interesse restrito, de vida mais ou menos efêmera, mas em nenhum momento a geração pareceu estar próxima de se aglutinar em torno do mesmo ideário anotam os organizadores.
Prevaleceu o pluralismo de estilos e tendências, ainda que a diversidade não excluísse afinidades e pontos de contato parciais. A constelação de referências demarcava os blocos. Se alguns reverenciavam Baudelaire, Rimbaud e Villon; outros preferiam Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade; e um terceiro grupo elegia os surrealistas e os poetas norte-americanos da beat generation como seus faróis.
A eloquência atravessava todas as turmas. A poesia e a condição de poeta tinham uma dimensão pública, afirmada em animados lançamentos de livros, mesas de debates e leituras. Lia-se muito em voz alta: uns para os outros, em teatros, casas noturnas, ruas e praças. Foi um tempo de agitação, de eventos como a Catequese Poética de Lindolf Bell, o Sermão do Viaduto de Álvaro Alves de Faria; e ainda do Comício Poético do mesmo Álvaro em companhia de Eduardo Alves da Costa e Carlos Soulié do Amaral.
Willer lembra que a busca da comunicação através da declamação foi, naquele momento, um traço distintivo com relação à poesia concreta e construtivismos afins. Um dos procedimentos adotados para organizar o volume foi ordenar os poemas cronologicamente por décadas e não por autores com o objetivo de realçar a dimensão coletiva da produção, com suas nuances e metamorfoses, ao longo do tempo. O resultado é a cobertura de quatro décadas de produção poética de uma geração subestimada pela crítica.
Contatos: Antologia Poética da Geração 60. Vários autores. Organizada por Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés. Editora Nankin. Tel. (11) 3106-7567. Fax (11) 3104-7033.


