A princípio, Glória Maria parece não ter papas na língua. Puro engano. Embora aparente falar espontaneamente tudo que pensa, ela mede cada palavra com exatidão. A jornalista teme ser mal interpretada, por isso a cada resposta afia as garras que já percorreram o mundo segurando microfones em inúmeras reportagens internacionais. Sem nenhuma cerimônia, Glória afirma que a carreira de repórter, construída em quase três décadas, pode ser trocada por uma vida tranquila e descompromissada. ‘‘Não tenho nenhum projeto para a minha carreira. Meu único plano é poder parar de trabalhar e viajar pelo mundo, mas inconsequentemente’’, confessa.
Apesar desse projeto descompromissado, ela não esconde o orgulho das matérias especiais, como a entrevista exclusiva que fez com os cantores Michael Jackson e Mick Jagger. ‘‘Eu também anunciei o fim da Guerra das Malvinas. Foi ótimo, mas não vivo de lembranças’’, enfatiza. Mas Glória também não vive pensando no futuro. Ela é adepta da filosofia budista e quer apenas viver um passo após o outro. ‘‘As pessoas não entendem porque não quero chefiar nem dirigir nada. Não quero impor nada a ninguém, só quero uma vida tranquila’’, justifica.
No mês passado, você completou 27 anos de Globo, a única empresa em que trabalhou a vida inteira. Como jornalista, não seria importante ter mantido contato com outras linhas editoriais em outros veículos?
É a mesma empresa, mas não é a mesma linha editorial. A Globo me permite seguir a minha linha editorial, por isso é tão fácil ficar tanto tempo na mesma empresa. Já fiz de tudo por aqui – guerras, Olimpíadas, comportamento, Copa do Mundo... Não chega a ser uma rotina, sempre foi muito dinâmico, pois eu posso criar sempre, tenho liberdade para isso. Comecei sendo só repórter, aos 16 anos, fui apresentadora da primeira fase do ‘‘Bom Dia Rio’’, apresentei o ‘‘Jornal Hoje’’ e o ‘‘RJTV’’. A cada dia é como se eu começasse em um lugar novo.
Sua carreira começou na época do governo Médici, no auge da ditadura militar e da censura. Você já foi censurada em alguma matéria?
Sempre tive liberdade total para fazer tudo o que eu quis. Acho que isso deve à minha maneira de trabalhar e ao meu comportamento explosivo, pois sou literalmente a ovelha negra da Globo. Se não joguei alguma matéria legal no ar, foi por incompetência minha, não por censura na Globo. A censura interna da empresa nunca existiu para mim, ninguém teria coragem de proibir alguma matéria, pois quem nos censurava eram os próprios militares nas entrevistas. Sou uma pessoa domesticável, manipulável. Mas acho que, na hora que eles tivessem que me censurar, me colocariam na rua.
Você quer dizer que tem carta branca na Globo?
Não tenho carta branca nem na minha vida. Tenho chefia e hierarquia. Tenho liberdade de discutir e negociar. Apresento idéias, muitas são aprovadas e muitíssimas não. Às vezes meu diretor me veta e diz que estou maluca. A vantagem da Globo é que ela é muito flexível. Aqui eu conheço todo mundo há muito tempo.
O ‘‘Fantástico’’ mudou muito nos últimos dez anos. Quais as próximas reformulações no programa?
Ele muda gradativamente. Hoje é mais comportamental, mais leve, com ‘‘news’’ para a noite de domingo. Talvez a minha entrada seja consequência dessa mudança gradual que ele vem sofrendo. Até o início do ano que vem vamos mudar o cenário, a forma. Ele terá uma cara nova, mas com o mesmo conteúdo. Ele será mais fantástico.