Os pais no cinema: amor e drama nas telas
Complexos e ambíguos, trágicos ou cômicos, os pais são retratados no cinema de acordo com as mudanças históricas, entre alegrias e decepções
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 2025
Complexos e ambíguos, trágicos ou cômicos, os pais são retratados no cinema de acordo com as mudanças históricas, entre alegrias e decepções
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Desde os seus primórdios, o cinema imaginou possíveis soluções para a relação pai/filho. O lugar e o papel desempenhados por esta parceria em alegrias e decepcões não são predeterminados, mas sim se transformam de acordo com as mudanças históricas.
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Cada era e período cinematográfico responde às tensões sociais e históricas construindo uma figura paterna distinta. Por isso, o objetivo desse texto não é analisar um sem número de filmes que centram seus argumentos na relação pai-filho, mas sim lançar um olhar, uma rota de navegação que permita questionar a figura paterna e suas representações cinematográficas em momentos diversos.
Filmes oferecem janelas para as muitas formas de criação dos filhos e a complexidade dos relacionamentos familiares, permitindo que os espectadores reflitam sobre o significado da paternidade e o impacto que ela pode ter na vida das pessoas diretamente envolvidas.
Assista ao trailer do clássico "O Sol é Para Todos":
No cinema, pais são retratados de maneiras diversas, desde figuras heroicas a vilões, passando por personagens complexos e ambíguos, tragicos ou cômicos. Ou tragicômicos.
Filmes também são bons (às vezes muito bons) em explorar vínculos entre pai e filho, os desafios da relação e como os pais influenciam suas vidas.
Aqui estão exemplos muito pessoais - e você também pode fazer sua lista - de como os pais são retratados no cinema.
Claro que a densidade das tramas e suas motivações podem variar (ainda bem), para o peso ou para a leveza, abrindo campo para maior ou menor carga de dramaturgia, para a tematização mais ou menos adulta.
DE PAI EM PAI
- Vamos começar com um pai até debaixo d’água: Marlin, pela própria natureza atravessando um oceano e empapado de suor (!) em busca do filho no leve, didático e divertido “Procurando Nemo” (2003).
- Seguindo nessa linha de pais exemplares e protetores, em “O Sol é para Todos”, o clássico “To Kill e Mockingbird”, o advogado Atticus Finch, profissional honesto e pai dedicado, ensina seus filhos sobre raça e classe, inocência e justiça, hipocrisia e heroísmo, tradição e transformação. O filme permanece tão importante hoje como quando foi feito, em 1962.

- Em “Querido Menino” (Beautiful Boy, 2018), drama profundo e de rara humanidade, Steve Carrell se desgarra da comédia nem sempre bem sucedida para viver um pai solteiro tentando reatar o vínculo da infância com o filho adolescente atolado em drogas (Timothée Chalamet, oito anos mais jovem mas já ator com peso considerável).
O filme é belo e penoso na mesma medida.

- O Guido, vivido e dirigido pelo próprio Roberto Benigni em “A Vida é Bela” (1997) é sem dúvida um dos pais mais famosos do cinema, embora não seja uma unanimidade enquanto criação artística. Na Segunda Guerra Mundial, ele é levado para um campo de concentração nazista com o filho. Cercados pelo horror e pela constante ameaça de morte, ele inventa um jogo fictício para impedir que o filho perceba o que está acontecendo, ao mesmo tempo em que tenta salvá-lo sem perder a afetividade.

- Revendo sempre que possivel “Uma Babá Quase Perfeita” (Mrs Doubtfire, 1993) fico com aquela enorme sensação do vazio deixado pelo grande, imenso Robin Williams. Sua interpretação raqui é uma das mais aclamadas de sua carreira – ao lado de...tantas e tantas outras. Mas desta vez o que temos é um primor de comicidade; e isto significa graça, humor, invenção. Timing. Isto é, o tempo preciso de fazer as coisas acontecerem na frente das camêras a serviço da melhor comédia. Ele interpreta um pai afastado dos filhos, Daniel Hillard, que decide se passar por uma mulher idosa como governanta. Essa é a maneira que ele encontra de se manter próximo das crianças, ao mesmo tempo em que tenta dar continuidade aos estudos delas e à vida familiar.
Há muitos mais, evidente. Remotos, recentes, em filmes, em séries, em épicos, minimalistas, em cults. O cinema, vocês sabem, nasceu, cresceu, tem vivido e sobrevivido sempre sob a guarda de um pai ou uma mãe, ou de ambos. Sem eles não há vida. E não haveria histórias para contar.


