OS OLHOS DO MUNDO SOBRE HOLLYWOOD
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de março de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Os números variam a cada previsão. Em 87, um bilhão de pessoas em 85 países. Dez anos depois, dados oficiais não deixaram por menos: 1,5 bilhão de pessoas de todo o mundo estavam sintonizadas na entrega do Oscar de 1997, um recorde na história do evento artístico mais popular da televisão mundial. Para a 73ª cerimônia da entrega da estatueta, hoje a partir das 23 horas direto do Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles, a expectativa é de que a platéia do grande circo eletrônico fique muito próxima de dois bilhões de telespectadores em cerca de 100 países. E mesmo com o País fora da disputa pelos prêmios principais, uma fatia considerável desta audiência vem sempre do Brasil, através da transmissão pelo SBT e canal pago Telecine. De novo, depois de Central do Brasil, a esperança de trazer o primeiro Oscar, agora por conta do curta-metragem Uma História de Futebol. Pelé, personagem do argumento, foi convidado pelo diretor do filme, Paulo Machline, e já disse que vai pela primeira vez à festa, como torcedor.
Mas o que faz mais de um bilhão de seres humanos ficarem ligados diante de um aparelho de televisão, vendo uma festa no todo reconhecidamente enfadonha? Teóricos em comunicação e psicologia social já se deram ao trabalho de buscar explicações, mas a mais simples talvez seja mesmo a magia do cinema. Lá novamente estará o maior elenco do mundo momento supremo de aflorar vaidades, ao vivo, via satélite, se emocionando, se descontrolando, errando o texto, cometendo piadas sofríveis na maioria, relativamente engraçadas às vezes, mas sempre irresistíveis aos olhos dos seguidores deste culto da cinefilia.
A única e grande dúvida da Academia e da rede ABC é saber que percentual desse bilhão vai aguentar cerca de 2 horas e 50 minutos, pouco mais, pouco menos, até a abertura do envelope derradeiro com a revelação do filme vencedor. Mas é justamente este um dos grandes trunfos que mantêm o fascínio desta estatueta feita de uma liga de chumbo, estanho e zinco folheada a ouro. A Academia sabe como nenhuma outra instituição do gênero como manter o suspense até o ultimo momento, e os 110 concorrentes de hoje à noite, dos quais sairão 23 vencedores, resultaram de 5.700 votos sigilosamente computados pela firma Price Waterhouse a mesma que volta e meia é contratada no Brasil para fiscalizar gastos e contas de obras públicas...
Já definida pelo diretor Bob Rafelson como um mau show de TV, a festa do Oscar pode oscilar do brega ao sublime em segundos. Cafona sim, mas ninguém deixa de ligar a televisão para ver, nem que seja por alguns instantes, o trânsito triunfal de astros e estrelas, os modelitos Dior, Armani, Dolce & Gabana, em guerra desfilando rigor, elegância e exotismo em flerte com o vale-tudo, os longos agradecimentos entre o ridículo e o inacreditável ultimamente bem mais controlados, a bem da verdade. Neste ano o mestre de cerimônias convidado será Steve Martin, que entra no lugar de Billy Cristal, que por sua vez substituiu Woopi Goldberg.
And the Oscar goes to..., a frase que antecede o gesto de rasgar o tradicional envelope lacrado tão lacrado que muita gente famosa já escorregou nesse lacre emoldura rostos apreensivos e movimentos nervosos da platéia concorrente. Mesmo que, intérpretes que são, queiram dissimular. Uma aflição que percorre a espinha de quem carrega o verdadeiro espírito do Oscar. Este ano, numa avaliação a frio, não parece haver dúvidas quanto às inclinações acadêmicas para Gladiador. Aliado a um feito contábil concreto e tilintante US$ 186 milhões arrecadados em 44 semanas de exibição a porção nostalgia de Hollywood ainda comemora o digno revival de um gênero
caído em desuso. Pior para Traffic, de longe o melhor dos cinco que brigam pelo Oscar principal. Por mais que ventos democráticos tenham soprado e arejado o colégio eleitoral e que os US$ 102 milhões de bilheteria sejam consideráveis, o xadrez da complexidade do narcotráfico não é um jogo palatável para Hollywood.
Erin Brokovich, outro com ótima rentabilidade (US$ 125 milhões), não está de fato no páreo, e sua presença é mais em função das candidaturas do diretor Steven Soderbergh e da atriz Julia Roberts, para muitos a maior barbada da noite. Os dois restantes, Chocolate e O Tigre e o Dragão, alienígenas no processo industrial de Hollywood, recebem a recompensa pela estimulante participação no sempre fechado mercado interno americano (US$ 155 milhões, somados) e não deixam de evidenciar a flexibilização da comunidade hollywoodiana em relação a produtos de cinematografias não-ianques. Se é uma tendência ou não, só as próximas temporadas vão dizer.
Na categoria melhor ator, Tom Hanks, uma espécie de namoradinho da América, pode levar seu terceiro Oscar, um recorde. Suscetível a estrangeiros e minorias, a Academia não vai referendar Javier Bardem, melhor ator em Veneza-2000 pelo mesmo filme, Antes que Anoiteça. O que os eleitores republicanos esquecem é que o escritor homossexual vivido pelo espanhol Bardem sofreu o diabo nas mãos da ditadura de Fidel Castro. E que o filme de Julian Schnabel é muito sobre este processo de asfixia das liberdades individuais pelos regimes monolíticos, à esquerda ou à direita, não importa.
Então é isso. Prepare os comes e bebes, com direito à cerveja bem gelada e pipoca, chame ou amigos ou curta sozinho. A noite do Oscar, agora dando novo sabor aos finais de Domingo, deve ser antes tudo uma brincadeira, um happening engalanado para não ser levada muito à sério. Finja que tudo não passa de uma superprodução, um Titanic sem naufrágio. Uma celebração desta grande arte do faz de conta.


