Os olhos do fantástico
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Quando um homem, após uma longa jornada, consegue chegar ao fim do mundo, resta-lhe apenas duas opções. Uma delas seria dar meia volta e retornar ao mundo conhecido. Outra seria seguir em frente, já que, o final de um mundo implica no começo de outro, completamente desconhecido.
La Fin des Terres, espetáculo que a Compagnie Philippe Genty apresenta no Filo 2008, aposta nessa segunda opção. Cria um outro mundo no palco. Um mundo propositalmente onírico, construído com imagens pautadas pelo ilógico, coroadas pela potência do inconsciente.
A companhia francesa de Philippe Genty realiza uma junção de linguagens que abarcam o teatro de imagem, a dança, o ilusionismo e o teatro de bonecos. Uma junção direcionada para a criação imagética não de um homem solitário atravessando a fronteira do final do mundo, mas um casal. E um casal com todas as suas implicações emocionais que fazem parte da normalidade dos relacionamentos.
Desprovido de texto, La Fin des Terres é uma autêntica viagem visual. Aquele tipo de espetáculo que cabe ao espectador entrar no teatro e deixar lógica e razão do lado de fora. Até mesmo os pensamentos tornam-se desnecessários, desprovidos de qualquer função. As emoções são geradas pela liberdade do olhar.
Quase tudo em La Fin des Terres tem um caráter plástico. A montagem flerta com as artes plásticas no sentido gerar formas e cores. Estímulos visuais e movimentos onde a surpresa ocupa lugar de destaque. Associado ao ilusionismo, os estímulos ganham uma dimensão bem próximo do universo fantástico.
O elemento que liga as imagens e as situações criadas pelo espetáculo está situado numa narrativa tênue. A fragmentação das cenas reforça essa tenuidade, algo que simula o ritmo das passagens de um sonho para outro. Passagens que a memória não consegue apreender dentro do mundo onírico. Ou seja, quando um homem chega ao final do mundo, ele é impelido a criar um outro mundo para colocar os pés.


