Um artefato redondo com camadas de plástico e acrílico, que se transformou em arquivo digital e que, agora, pode ser armazenado, compartilhado e modificado aos milhares de unidades em qualquer dispositivo móvel - poucas histórias identificam melhor a complexidade da primeira década do século 21 do que a morte do velho CD e o caminho tortuoso trilhado pelo mercado musical. O motivo: nossa maneira de consumir a música mudou. E muito.
O começo do fim da antiga indústria fonográfica teve início pelas mãos do jovem programador americano Shawn Fanning que, em meados do ano 2000, resolveu abandonar a universidade para se dedicar a um projeto ousado: criar uma rede de compartilhamento que permitia ao usuário disponibilizar as suas músicas em formato MP3, de dentro de seu computador, para o resto do mundo. Doze meses e oito milhões de usúarios depois, o Napster era mais do que uma ferida no céu da boca da poderosa indústria, que reagiu ferozmente - inundado por processos pela quebra de direitos autorais e sendo perseguido por vários popstars, o programa de Shawn Fanning foi encerrado judicialmente em 2002. No mesmo ano, surgiram as cópias 'compartilhadoras' Kazaa, eDonkey, Morpheus e Audiogalaxy - a revolução digital na forma de consumir a música havia começado, e o show tinha que continuar.
Aumentando a onda digital e desferindo outro golpe no queixo da Indústria, o lançamento da icônica geração iPod (com siglas que significam, em inglês, 'o portátil que eu sempre quis') também foi um dos principais responsáveis pela mudança em nosso modo de ouvir música. Os produtos do visionário Steve Jobs aliaram a portabilidade aos arquivos musicais, que agora dispensavam qualquer meio físico e cabiam dentro de uma caixinha. Para o desespero da indústria, não demorou muito até que todas as grandes produtoras de eletrônicos corressem atrás dessa tendência, com aparelhos similares e com cada vez maior capacidade de armazenamento. ''Não compro mais. Baixar da internet é muito mais fácil e barato, além de você conseguir encontrar várias bandas que eram difíceis de comprar em lojas'', afirma o baterista Ederson Safra, que tem uma silenciosa coleção de CDs no armário, esquecida após a digitalização musical. ''O mundo mudou. Hoje eu escuto minhas músicas, leio livros e vejo filmes através do computador'', completa.
A queda de vendas de CDs nos últimos dez anos foi sentida no bolso. De acordo com o balanço divulgado pela agência de pesquisa americana Forrester, a renda da indústria musical no ano passado foi de apenas U$ 6,3 bilhões. Parece muito, mas é menos da metade do que era arrecadado em 1999, nos bons e velhos tempos pré-Napster. O epitáfio dos Compact-Discs está datado pelo fatídico 30 de março de 2009, dia em que a onipotente Virgin Records, maior loja de discos do mundo, fechou suas portas para sempre.
Os reflexos da crise nos EUA atingiram todo o mundo. ''Nós trabalhamos agora com instrumentos musicais, roupas e acessórios'', declara Aristides dos Santos Filho, o sócio-proprietário das duas lojas Capital Discos, única sobrevivente do ramo em Londrina. ''Hoje, a venda de CDs não representa nem 5% do nossa renda mensal. Tivemos que nos adaptar para sobreviver'', lamenta Aristides, que atribui essa queda do consumo ao alto custo dos produtos - o preço de um CD novo varia entre R$ 35 e R$ 50 - e à disponibilidade no mercado informal. ''Eu não acredito que a Internet, aqui em Londrina, me atrapalhe tanto quanto os camelôs'', ressalta.
O fato é que a última década, além de instalar a crise na Indústria musical, também serviu para alterar profundamente a posição dos artistas com relação ao mercado que eles ocupam. Em 2007, a banda Radiohead rompeu com sua gravadora e tomou a iniciativa inédita de disponibilizar todo o seu disco 'In Rainbows' através do site oficial da banda, dando a liberdade aos internautas de escolherem o preço que eles queriam pagar pelas músicas. A experiência foi tão bem sucedida que apontou uma nova tendência no relacionamento entre os artistas e seus fãs - menos milionária, mais intimista e democrática.

Riscos no CD
A revista americana Billboard divulgou em maio deste ano alguns dados fazendo uma estimativa das perdas e ganhos para a indústria fonográfica nos Estados Unidos em 2010. O resultado do cálculo não conseguiu agradar em nada os ouvidos das grandes gravadoras.

Vendas perdidas de CDs estimadas até o final de 2010 =

- U$ 270 milhões
Vendas de músicas digitais em 2009 =
+ U$ 119 milhões
Vendas de álbuns digitais em 2009 =

+ U$ 33 milhões
Perdas pelos dowloads gratuitos em dispositivos móveis =

- U$ 65 milhões
Ganhos através de royalties =

+ U$ 18 milhões
Total = U$ 165 milhões em prejuízo em 2010

Fonte: Billboard

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