OS NOVOS REBELDES
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de agosto de 2001
Nelson Sato<BR>De Londrina 
Não faça piquetes, vandalize. Não proteste, desfigure.
A pregação é de Hakim Bey no manifesto pela sabotagem artística, incluído em TAZ, texto que se tornou referência nos debates radicais contemporâneos. TAZ chega às livrarias no próximo mês como um dos títulos da coleção Baderna A Arte da Subversão para as Novas Gerações, publicada pela editora Conrad.
Baderna vai introduzir os leitores brasileiros a um universo de idéias ainda desconhecido do grande público. Além de Hakim Bey, a esquerda da esquerda inclui nomes como Luther Blissett, Matteo Guarnaccia e Critical Art Ensemble. Sem a mesma repercussão midiática do movimento anti-globalização, os heróis do novo anarquismo convergem com este na recusa da ordem estabelecida, o que não é pouco em vista do longo período em que todos nós fomos submetidos à ladainha de que o ativismo estava fora de moda.
No pacote inaugural da coleção, TAZ se destaca pelo prestígio conquistado nos subterrâneos da cultura, tanto nos debates mais explicitamente políticos quanto nas discussões a respeito do efeito político das raves e dos hackers. O texto, que fornece instrumental teórico para os chamados guerrilheiros da comunicação, recebeu elogios entusiasmados de escritores e poetas da geração beat como Allen Ginsberg e Willian Burroughs.
Para muitos, é o texto mais subversivo surgido no final do século XX. Guerrilha Psíquica, do italiano Luther Blissett, é outra dinamite do pacote. Reúne os manifestos, pregações e a ficha de antecedentes policiais do autor, que talvez seja o transgressor mais famoso da Europa desde o pós-guerra.
Ele assina a edição do mais recente número da revista inglesa Dazed & Confused, que o anuncia com entusiasmo: Luther Blissett foi um jogador de futebol muito bom. Luther Blissett é um poeta. Luther Blissett é um pensador. Luther Blissett é um romancista, um astro do rádio, um filósofo, um prankster, um punk, um dadaísta, ativista de esquerda e um neo-mítico herói do povo. Luther Blissett é, literalmente, uma lenda.
Figura de proa da política cultural de esquerda, sua fama pode ser conferida na Internet, onde uma procura no site de busca Google exibe aproximadamente 5 mil sites com seu nome. Seu último romance, Q, fez tanto sucesso que levantou-se a hipótese na imprensa que seu verdadeiro autor seria Umberto Eco. A Conrad promete a publicação de Q para novembro.
Distúrbio Eletrônico, do grupo Critical Art Ensemble, renova a militância propondo ações mais sutis usando a rede mundial de computadores e a arte. Uma resposta para a questão que aflige a esquerda desde o momento em que ficou claro que não adiantaria invadir fisicamente a Casa Branca, o Pentágono ou a Wall Street para tornar vitoriosa a Revolução Mundial.
Para o grupo Critical Art Ensemble, só uma luta de guerrilheiros nômades para fazer frente a um Poder que não tem mais centro. A internet, por ser um meio em que as idéias e as informações circulam com quase total liberdade, pode tornar-se um privilegiado campo de batalha. O livro virou best-seller nos Estados Unidos com seu impacto propagando-se pela França, Espanha, Alemanha e Itália.
Também com alto teor explosivo, Provos Amsterdã e o Nascimento da Contracultura narra a história desse grupo, um dos principais responsáveis por transformar a capital da Holanda na cidade mais livre e tolerante do Ocidente. De autoria de Matteo Guarnaccia, o livro recapitula os impagáveis planos brancos do movimento, que mesclavam soluções para as mazelas sociais e ecológicas da cidade com provocações às autoridades dinamarquesas.
Herdeiros do dadaísmo e da tradição anarco-comunista, os provos inauguraram novas formas de ação política e militância ecológica usando o humor como arma. Foram os primeiros a desencadear uma luta libertária contra o automóvel e contra a indústria tabagista.
Uma de suas iniciativas, o Projeto Mulheres Brancas, propunha batalhar pela total liberação das relações sexuais, garantindo, porém, a total independência das mulheres. Seriam instalados centros de aconselhamento sexual em todos os bairros da cidade e luta por mais tempo de lazer para que as mulheres pudessem investir na própria criatividade.
Outra iniciativa, o Projeto Tiras Brancas, consistia em transformar policiais, de meros mercenários repressivos que eram, em trabalhadores sociais. Vestidos de branco, deveriam colocar-se à disposição da população fornecendo-lhes sempre que necessário objetos de primeira necessidade, tipo fósforos, preservativos, esparadrapos etc.
O Projeto Casas Brancas propunha que se distribuísse à população, todos os sábados, uma lista de todas as casas vagas na cidade. As portas dessas casas seriam pintadas de branco, o que implicava que as pessoas que necessitassem e quisessem poderiam ali se instalar. Já o Projeto Rainhas Brancas, pregava a transformação do palácio real em hotel.
A rua voltaria a ser um local de jogos e brincadeiras. Os monumentos e palácios oficiais seriam franqueados à polulação e todas as reuniões das autoridades passariam a ser públicas. O novo mundo ambicionado pelos provos tinha a não-violência como motriz e seria construído sobre bases utópicas: um novo tipo de convívio, uma economia alternativa, o desapareciemnto dos políticos convencionais e uma forma desburocratizada dos centros de decisão.
Em maio de 1966, eles ganhariam reputação internacional ao atacar com bombas de fumaça o desfile de casamento da Princesa Beatrix e do Príncipe Claus von Amsburg. A polícia revidou, batendo selvagemente nos manifestantes contrários à monarquia. O povo de Amsterdã, contudo, demonstrou apoio à causa provo, votando num representante do movimento para vereador nas eleições locais, três semanas depois.
Em 1967, o movimento optou pela autodissolução. É essa saga que o leitores brasileiros conhecerão em breve em meio a outras não menos inspiradoras.


