São Paulo, 28 (AE) - Latitude Zero é um ponto terminal, aquele onde as paixões chegam ao limite. É o título do novo longa-metragem de Toni Venturi (autor do documentário "O Velho", sobre Luís Carlos Prestes) e sua primeira tentativa na ficção. O filme, baseado numa peça inédita do escritor Fernando Bonassi, "As Coisas Ruins de Nossa Cabeça", já está em fase de montagem. "Latitude Zero", como disse o diretor, é uma proposta radical. E não só por seu tema. Pode ser também o filme-símbolo de uma nova atitude dos jovens cineastas, que buscam produções mais baratas, ousadas, talvez mais adequadas à realidade do País.
Alguns diretores, Venturi entre eles, acham que o cinema brasileiro está inflacionado, operando com custos muito altos, o que o burocratiza, tornando-o inócuo socialmente, conservador do ponto de vista da estética e inviável no aspecto financeiro.
As propostas de vários cineastas brasileiros, em maior ou menor medida inspirados no Dogma 95, dos dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier, buscam o caminho de produções mais baratas, mais ágeis, mais plugadas na tortuosa realidade social do País. O resultado dessa disposição seria, em tese, filmes mais contundentes e menos digestivos.
A trama de "Latitude Zero" deixa antever essa disposição radical do projeto. São dois os personagens principais. Lena (Débora Duboc) é uma dona de bar, grávida de oito meses; o pai da criança é um coronel da PM, Mattos (Celso Frateschi), que a abandonou. Vilela (Cláudio Jaborandy) é um cabo da polícia perseguido por um crime. Fazia parte do grupo de Mattos. "Ele chega ao bar, que fica num lugar esquecido do mundo, e vem como um anjo exterminador, para complicar uma situação já em si bem difícil", diz Venturi.
A própria locação já é quase como um personagem. Tudo respira um clima de fronteira terminal. O bar de Lena é um desses estabelecimentos de beira de estrada que servem uma cachaça com tira-gosto no balcão, mas também podem preparar um prato de comida ou oferecer uma cama ao viajante. Funciona com um pequeno posto de gasolina acoplado a ele. Ponto de parada para caminhoneiros - se houvesse caminhoneiros dispostos a parar por aquelas bandas perdidas nos confins de Rondônia.
"A situação buscada é de desolação mesmo", afirma o cineasta. "Vêem-se caminhões ao longe, passando pelas estradas de terra, mas eles nunca param." Lena é descrita como uma mulher à beira da animalidade, por causa do sofrimento, das privações e do isolamento. Vilela tenta reconstruir o local, que está abandonado. É um tipo idealista, que inicialmente procura modificar as coisas para melhor.
No entanto, informa Venturi, há uma curva dramática dupla envolvendo o encontro desses personagens tão diferentes entre si. "Lena vai se humanizando pelo contato com Vilela, que
de início, é um homem terno; no entanto, ele caminha na direção oposta, seus planos não dão certo e vai naufragando na bebida e na loucura", diz. O roteiro desse encontro entre dois seres marcados pela vida foi escrito, a partir da peça de Bonassi, pelo próprio cineasta e por Di Moretti.

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