Os Mutantes chegam ao Brasil
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sábado, 05 de março de 2011
Adriana Del Ré <br> Agência Estado 
São Paulo - Em sua casa na cidade de Henderson, Nevada, nos Estados Unidos, o guitarrista Sérgio Dias, 60 anos, desfruta de seus últimos dias de férias. Foram três meses de descanso - e também recuperando a saúde, deixada no meio do caminho após cinco anos non-stop de estrada à frente de sua banda Os Mutantes. Ter um lar americano foi uma necessidade logística, por causa da demanda de shows no exterior. Mas Sérgio continua a manter sua casa-estúdio na Granja Viana, em São Paulo. Se bem que, nos últimos tempos, seu endereço mais habitual tem sido mesmo vans e aviões.
O desabafo do músico, ao mencionar seu cansaço e as merecidas férias, soa menos como um lamento e mais como uma constatação: sua banda retornou em 2006, num show histórico em Londres, sem data para expirar novamente. Mas nem todos pensam dessa maneira, na opinião de Sérgio. E ele atribui isso ao fato de o novo disco de inéditas do Mutantes, ''Haih or Amortecedor'', ter sido lançado primeiro no exterior, em 2009, e só agora ter chegado ao Brasil. ''Quando Arnaldo Baptista e Zélia Duncan saíram, as pessoas não acreditavam que a banda continuaria e eu tinha de provar de novo que não seria assim'', diz o guitarrista, citando os dois ex-integrantes dessa volta do grupo.
Por aqui, o grupo fez uma prévia de algumas dessas faixas inéditas durante sua apresentação no festival SWU, em Itu, em outubro do ano passado. Entre elas, ''Querida Querida'', uma das sete canções feitas em parceria pela dupla Sérgio Dias e Tom Zé. A presença de Tom no trabalho do Mutantes imprime um resultado, no mínimo, curioso, combinando os experimentalismos e a poesia do compositor baiano com a irreverência e psicodelia da banda de rock. Muitas vezes, essa fusão é saborosa, como o baião, meio abolerado, meio amalucado, ''2000 e Agarrum''. ''Encontramos Tom Zé no show que o Mutantes fez em São Paulo, em 2007'', conta Sérgio. Naquela ocasião, Tom e Sérgio - que já tinham se encontrado em outros carnavais tropicalistas - esboçaram o interesse de fazer algo juntos.
''Quando conheci Tom Zé, eu tinha 17 anos. Ele foi minha musa inspiradora'', diverte-se Sérgio. E, retomando o papo sério, o músico garante que Tom foi um de seus melhores - se não, o melhor - parceiros. A estreia dessa parceria no disco se deu com ''Amortecedor'', quando Sérgio lançou essa palavra para o amigo, que a desconstruiu em ''amor'', ''morte'', ''tece''.
Sem olhar para trás
A outra metade do repertório recebeu colaborações de nomes como Erasmo Carlos e Jorge Ben Jor. Além da sonoridade que remete, muitas vezes, ao Mutantes dos anos 60 e 70, o novo CD faz lembrar da formação clássica - com Sérgio, seu irmão Arnaldo Baptista e Rita Lee - também no título. ''Haih or Amortecedor'' traz duas opções de títulos, a exemplo de álbuns como ''A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado'' (1970). A parte do ''Amortecedor'' já é sabida. Já ''Haih'' significa ''corvo'' na língua dos índios shoshones (dos EUA), ave que Sérgio aprecia muito. Quanto a possíveis comparações com os primórdios do Mutantes, o guitarrista e um de seus fundadores dispara: ''Nunca olhei para trás, para os outros discos''.


