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PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de abril de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Os leitores que tiverem um exagerado pudor em relação às secreções e excreções do corpo humano, certamente ficarão constrangidos diante do novo livro do escritor carioca Rubem Fonseca. O próprio título da obra é fiel ao seu conteúdo: Secreções, Excreções e Desatinos.
Claro que os desatinos são mais determinantes na vida humana do que substâncias que o corpo expele. Assim, Fonseca estabelece uma conexão entre as duas coisas e transforma tudo em literatura. Em outras palavras, sugere que a literatura precisa ser desatinada porque a existência em si é o próprio desatino.
Em Secreções, Excreções e Desatinos, lançado essa semana pela Editora Companhia das Letras, o escritor retoma a sua boa e velha forma de contista que foi, de certa forma, deixada de lado em seus últimos livros. A obra reúne 14 contos que apresentam um enfoque frio e perspicaz das entranhas humanas. Muito próximo do universo trabalhado pelo curitibano Dalton Trevisan. Não é sem motivo que Fonseca e Trevisan são considerados os melhores contistas em atividade na literatura brasileira.
O conto que abre o livro, Copromancia, narra a história de um homem que desenvolve um complexo método de prever o futuro através da observação das fezes. Mesmo sendo cético, passa anos estudando diariamente as próprios excrementos e acaba criando uma nova ciência. Assim como videntes realizam leitura de astros, cartas, búzios, mãos e outras coisas mais, o narrador desenvolve a leitura de merda. No final prevê a própria morte de maneira romântica: através das fezes da mulher amada.
O conto que fecha o volume, Vida, narra a história do cotidiano de um homem que sofre o constante acúmulo de gases no intestino. Obrigado pela esposa, sempre precisa expelir seus gases no banheiro da residência. Nesse espaço particular e solitário, vislumbra o paraíso. Conhece a felicidade sozinho, trancado no banheiro, soltando livremente seus gases, longe da esposa gorda e insuportável.
Pode parecer escatologia, mas não é. Embora seja emblemático que Rubem Fonseca abra e encerre Secreções, Excreções e Desatinos com essa temática, as demais narrativas seguem por outros caminhos. Na realidade o escritor faz uso de dejetos humanos (como poderia fazer uso de alvas purezas) para refletir sobre a própria miserabilidade do ser humano. Uma miserabilidade que, pela sua condição, se converte em virtude.
O corpo humano, entre outras coisas, é uma fábrica de secreções e excreções. E existe um momento particular em que grande parte das substâncias produzidas por essa fábrica se encontram: no sublime ato sexual onde saliva, suor, sêmen, líquidos vaginais, lágrimas, cera de ouvido, etc, são comungados pelos corpos. Consciente disso, Fonseca coloca em quase todas as narrativas do livro o impulso sexual (e a paixão) como o mais poderoso combustível de desatinos de todos os tempos.
Se, por um lado, o raciocínio galgou uma assustadora evolução na história da humanidade, por outro, o instinto sexual ainda está preso às forças primitivas, animais. O conflito entre os dois pólos, embora integre o cotidiano de qualquer pessoa e apareça nas televisões e jornais, é justamente na literatura que encontra o mais sensato terreno de abordagem e reflexão.
Entre a ampla fauna humana que povoa Secreções, Excreções e Desatinos, algumas espécimes merecem destaques. Entre elas está um jovem vegetariano franzino que presencia regularmente a amada ser assediada pelo vizinho carnívoro e musculoso. Levando uma vida pacífica, é invadido por uma revolução no dia em que a namorada lhe dá o fora para dormir com o vizinho. Pelas mãos do destino, abandona o arroz com alface em nome da vingança. Transforma-se num apreciador de bifes malpassado e bebedor de sangue. De volta aos instintos primitivos, reconquista a namorada mas, depois de todo processo, seu coração almeja outras mulheres.
Um outro conto narra a arte de um corcunda em seduzir as mulheres mais bonitas da cidade. Sua tática é conquistá-las através dos recursos das artes, em especial a poesia. Para isso usa o básico recurso de deixar as mulheres falarem, falarem e falarem. A lógica estaria na constatação de que toda mulher gosta de ser ouvida com atenção e ser seduzida com lentidão. O resto é supérfluo e, depois da conquista, é só procurar outra vítima.
Fonseca também conta a história de um sujeito solitário que desenvolveu teorias mirabulantes elevando o onanismo como a principal prática sexual da humanidade. Claro que, ao final, sob de suas intenções, surge um toque de despeito, fruto de um amor não correspondido. A tudo isso se juntam outras histórias sobre a sedutora descoberta do prazer sexual durante o período menstrual, o erotismo das pústulas no seio da mulher amada e outras coisas ocultas em quatro paredes.
O que surpreende nos contos de Secreções, Excreções e Desatinos é que, apesar de toda frieza narrativa das personagens, apesar de toda sutil ironia e humor dissimulado, Rubem Fonseca deixa transparecer doses latentes de doçura. Doses de doçura em sua vasta obra que compreende 20 livros publicados, trata-se de algo raro. A paixão, seja ela construtiva ou destrutiva, seria o instinto que envolve a maioria de suas novas histórias com secreções ou sem secreções, com excreções ou sem excreções. Mas todas com algum desatino, ou seja, tudo dentro da mais profunda normalidade que geralmente o senso comum costuma negar.
Secreções, Excreções e Desatinos - De Rubem Fonseca, Editora Companhia Das Letras (telefone: (11) 3846-0801 / internet: www.companhiadasletras.com.br), 144 páginas, R$ 21,00.


