Nos últimos dois anos o interesse por Clarice Lispector (1920 - 1977) explodiu em várias partes do mundo. Tudo graças ao livro ''Clarice'', biografia da escritora realizada pelo pesquisador norte-americano Benjamin Moser.
Publicado nos Estados Unidos em 2008, o livro despertou a atenção para uma mulher desconhecida dos leitores americanos. Clarice passou a ser cultuada como ''escritora misteriosa''. A obra entrou para a lista dos melhores livros publicados naquele ano e começou a ser editada em outros países.
Publicada no Brasil em 1999 pela editora Cosac Naify, ''Clarice'' já vendeu mais de 30 mil exemplares. Esse número pode duplicar com a nova edição de bolso com um preço mais acessível que acaba de chegar às livrarias.
Benjamin Moser entrou pela primeira vez em contato com os textos de Clarice Lispector através de curso de literatura brasileira. Imediatamente se apaixonou por sua literatura e começou a aprender português para estudá-la.
Quando começou a pesquisa para escrever uma biografia, trabalho que levou cinco anos, seu objetivo era apresentar a vida e a obra de Clarice Lispector aos leitores de países de língua inglesa. Conseguiu muito mais.
''Clarice'' oferece detalhes inéditos e novas abordagens sobre a vida e obra de Clarice Lispector. É, sem dúvida, a biografia mais completa e reveladora da escritora. Até então, a mérito da melhor biografia residia sobre ''Clarice: Uma Vida Que Se Conta'' (Editora Ática, 1995) da pesquisadora brasileira Nádia Battella Gotlib. A obra de Benjamin Moser segue vários passos além.
Entre as várias teses que Benjamin Moser levanta em ''Clarice'', a principal está na influência da ascendência judaica na literatura da escritora. Partindo do fato de que a obra criada por Clarice foi única, sem nenhuma semelhança ou vínculos com a literatura brasileira que a antecede, sua escrita estaria muito mais atrelada à tradição literária da mística judaica do que à literatura brasileira propriamente dita.
Embora não tenha professado a religião judaica herdada dos pais imigrantes, Clarice teria utilizado o processo cabalístico para criar sua escrita. Benjamin Moser traça semelhanças no procedimento literário de Lispector com autores norte-americanos igualmente filhos de imigrantes judeus.
Nascida na Ucrânia em 1920 com o nome de Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice chegou ao Brasil com dois anos de idade. Sua família imigrou para o país fugindo das atrocidades da Guerra Civil Russa. Sobre esse assunto Benjamin apresenta uma série de novidades através da pesquisa que realizou na Ucrânia.
Durante a guerra a mãe de Clarice, chamada Pinkhas, foi estuprada por soldados e contraiu sífilis. Segundo as tradição do lugar, a forma de cura seria a mulher ter um filho. A cura aconteceria através do nascimento da criança. Seguindo a tradição, Pinkhas teve um filho. Na verdade uma filha.
Clarice nasceu e não curou a doença da mãe, que foi abatida pela insanidade e passou a viver em hospícios de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Pinkhas morreu vítima da doença quando a filha tinha nove anos de idade. Clarice teria nascido para algo que não se cumpriu. Um verdadeiro peso sobre sua existência.
No campo amoroso, Benjamin Moser deixa claro que os dois maiores amores de Clarice a deixaram na sarjeta da amargura. O primeiro teria sido o escritor Lúcio Cardoso, que apesar do amor e da amizade que tinha por Clarice, preferiu os homens por ser homossexual. O segundo teria sido o cronista Paulo Mendes Campos, que apesar de viver uma paixão extraconjugal com Clarice, preferiu ficar ao lado da esposa.
Quem desejar visitar o túmulo de Clarice Lispector no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, terá dificuldade em encontrar onde foi sepultada. Na lápide, gravada em língua hebraica, aparece apenas as palavras ''Chaya bat Pinkhas'' (Chaya, filha de Pinkhas).

  Os dois vícios de Clarice, os cigarros e os remédios para dormir, cobravam finalmente seu preço. Ela dormia numa cama de solteiro, junto a uma janela com cortinas, e sempre tivera problemas com o sono, indo dormir por volta das nove e levantando nas primeiras horas da manhã. Naquela noite, depois de tomar suas pílulas, ficou fumando na cama. Quando acordou o quarto estava em chamas. Seu filho Paulo tirou-a do quarto incendiado e tocou insistentemente a campainha do apartamento vizinho. Os assustados moradores, Saul e Heloísa, mal saíram do sono e viram Clarice, com o corpo todo queimado, em pé diante da porta. Ela não disse uma única palavra. Saul e Paulo correram para apagar o fogo enquanto Heloísa levava Clarice para dentro. Sua camisola de náilon meio derretida estava grudada no corpo e, ao caminhar pelo carpete de Heloísa, deixou pegadas de sangue.
(Fragmento de ‘‘Clarice’’ de Benjamin Moser)

SERVIÇO
Clarice,
Autor - Benjamin Moser
Editora - Cosac Naify
Tradução - José Geraldo Couto
Páginas - 752
Quanto - R$ 29,90

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