''Os Miseráveis'' na visão de Bille August
A carreira do diretor dinamarquês Bille August é marcada por altos e baixos. Em 1989, ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes, o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro por Pele - O Conquistador e, em 1992, ganhou novamente a Palma de Ouro por As Melhores Intenções. Depois desse reconhecimento internacional, o cineasta adaptou para o cinema o best seller Casa dos Espíritos, de Isabel Allende e Mistério na Neve, de Peter Hoeg, porém, sem obter o mesmo êxito.
Em Os Miseráveis - já nas locadoras em VHS e DVD - Bille August insiste mais uma vez na adaptação de um clássico. A obra de Victor Hugo já foi adaptada para o cinema várias vezes, a última foi dirigida por Claude Lelouch em 1995. Devido à má fase do cineasta, muitos desconfiavam do resultado da sua versão de Os Miseráveis. No entanto, esta pode não ser a melhor adaptação do épico de Victor Hugo para as telas, mas é digna de respeito. Apesar de ter suavizado os problemas políticos e sociais da França do Século 19, Bille August conseguiu agradar à crítica. Os Miseráveis é um filme burocrático, mas é possível assisti-lo com relativo prazer.
Coube ao roteirista Rafael Yglesias a difícil tarefa de transformar o calhamaço escrito por Victor Hugo num filme de duas horas e meia de duração. Para isso, ele se concentrou no duelo entre Valjean e Javert, personagens interpretatos pelos atores Liam Neeson e Geoffrey Rush. A ótima interpretação de ambos dá credibilidade ao filme que conta uma história que discute questões sociais como injustiça e miséria num estilo quase folhetinesco. Esse caráter híbrido da obra de Victor Hugo tornou o texto perene e, portanto, muito atrativo para o cinema.
Numa França afogada na miséria e na corrupção, Jean Valjean é condenado a 20 anos de trabalhos forçados por ter roubado um pedaço de pão. Após fugir da prisão, ele se torna prefeito de um pequeno vilarejo, mas logo o policial Javert descobre sua verdadeira identidade, dando início a uma perseguição implacável. Resguardadas as devidas diferenças, é possível comparar o filme Os Miseráveis a O Fugitivo, no qual Harrison Ford passa o tempo todo tentando escapar da perseguição obstinada do policial interpretado por Thommy Lee Jones.
Mesmo deixando de lado as questões sociais que aflingiam a França pós-revolucionária, Bille August fez um filme comovente e muito bem dirigido, criando um duelo emocionante entre Valjean e Javert. O cineasta também foi feliz na escolha do elenco que inclui Uma Thurman no papel da sofrida Fantine e Claire Danes, interpretando a inocente Cosette. Bille August pode não ter realizado um grande filme, mas só o fato de promover um encontro respeitoso do espectador com a obra de Victor Hugo já merece elogios. Lançamento da Columbia TriStar. Duração: 131 minutos.DivulgaçãoLiam Neeson e Claire Danes em cena de Os Miseráveis: versão para o cinema é digna de respeitoCelso Mattos





