Curitiba – Os 11 dias do Festival de Teatro de Curitiba tiveram poucas, mas envolventes montagens entre as 18 atrações da Mostra de Teatro Contemporâneo. Apesar de nomes de peso terem disputado inicialmente as atenções do público, foram outras as gratas surpresas que chegaram aos palcos do festival. Depois dos primeiros dias apáticos, sem grandes empolgações, o FTC abriu a segunda e última semana do evento com grandes momentos que marcaram a programação: a sublime montagem ‘‘Novas Diretrizes em Tempo de Paz’’ e a envolvente ‘‘Um Bonde Chamado Desejo’’ (ver textos nesta página)
O público ainda se identificou com ‘‘Norma’’, emocionante texto de Dora Castellar e Tonio Carvalho. Os atores Ana Lúcia Torre e Eduardo Moscovis conseguiram a cumplicidade do espectador ao desnudarem em sua relação sentimentos que envolvem solidão, rejeição, perdas afetivas e preconceitos que muitas vezes conduzem a vida das pessoas de forma dolorosa e desumana.
Quem também apostou numa peça que trata de relações humanas e na força do ator em cena foi o diretor Elias Andreato, que buscou em ‘‘Só Mais Um Instante’’ – texto de Marta Góes (autora de ‘‘Um Porto Para Elisabeth Bishop’’) – a essência para o trabalho de Tânia Bondezan e os jovens João Paulo Lorenzon e Heloísa Cintra Castilho, recém-formados atores paulistas. Eles vivem uma história cotidiana de mãe e filhos que também buscam a cumplicidade emocional do público.
Vale destacar ainda ‘‘Almoço na Casa do Sr. Ludwig’’ (de Thomas Bernhard), montagem gaúcha dirigida por Luciano Alabarse. A cena ocupa-se com uma curta passagem de tempo – Ludwig volta de uma clínica onde estava internado e cria uma situação de tensão na família, constituída pelas duas irmãs. ‘‘Almoço...’’ vale-se da palavra, dos desafios verbais. Como disse o diretor, ele não estava mesmo à procura do fácil, e encontrou em Luiz Paulo Vasconcellos, Sandra Deni e Ida Celina um trio à altura para sua proposta.
‘‘Meu Destino é Pecar’’, da Companhia dos Atores, do Rio de Janeiro, buscou a experimentação da linguagem teatral valorizando o trabalho do conjunto de atores no conturbado universo rodrigueano.
A aposta dessas companhias foi no resgate da palavra, no lado humanista das relações. Sobretudo na – ainda que aparente – simplicidade, um ingrediente fundamental nas propostas de encenação. Espectadores foram fisgados pela força de bons textos e atuações arrebatadoras.
O Fringe – mostra paralela – apresentou mais uma vez boas novidades no cenário nacional. Com uma oferta de 136 espetáculos, fica difícil para o público selecionar os melhores trabalhos. No entanto, algumas conseguiram merecido destaque, principalmente graças ao boca a boca. Aliás, o maior responsável pelas filas nas portas dos teatros.
Este ano, novos espetáculos roubaram a atenção do público e da crítica, rascunhando a cara do teatro contemporâneo. Entre os destaques aparecem ‘‘Hysteria’’, do Grupo XIX de Teatro (São Paulo), ‘‘La Edad de La Ciruela’’, da Companhia Sobretabla (Argentina), ‘‘Os Camaradas’’, da Cia. Carona de Teatro (Blumenau-SC), e ‘‘Sebastião’’, do Basirah Núcleo de Dança Contemporânea (Brasília), trabalho de nível internacional inspirado na obra do fotógrafo Sebastião Salgado.

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