Eva Wilma cativou a todos em ‘‘A Indomada’’ e leva o troféu de melhor atrizA oitava edição de Melhores & Piores foi a mais bem-sucedida dos últimos anos. O quorum de votação contou com cerca de 85% dos mais de 80 editores que sintonizam a TV Press. Apesar do alto comparecimento, o ano não prometia. Na verdade, o panorama de 1997 na televisão foi assustador e beirou o escatológico. Confira os resultados da votação dos ‘‘Melhores e Piores’’ na teledramaturgia, telejornalismo e shows.
Teledramaturgia
O ano que passou não trouxe grandes novidades na área de teledramaturgia. Ao contrário, a impressão que se tem é que houve uma regressão no setor. O que vem sendo feito tem qualidade mais que duvidosa. E há quem prefira recolher o time dramatúrgico temporariamente.

Luíza Brunet não convence na telinha e acaba como pior atriz de 97Traumatizado com o mau desempenho de tramas nacionais, como ‘‘Os Ossos do Barão’’ e ‘‘Dona Anja’’, que rebolaram para chegar aos dois dígitos de audiência, Sílvio Santos preferiu reativar uma série mexicana a investir para valer no produto nacional, já que na relação custo/benefício, as tramas latinas são dez vezes mais econômicas.
Na Record, Atílio Riccó bem que tentou reativar o departamento de teledramaturgia. Mas não é preciso nem observar ‘‘Canoa do Bagre’’ muito atentamente para perceber a precariedade das produções enfiadas goela abaixo do espectador.
Ao longo de 1997, dez novelas testaram a paciência do público por meses a fio. A quantidade de tramas no ar foi inversamente proporcional à qualidade. Até mesmo a Manchete, que vinha se destacando desde que Walter Avancini assumiu o departamento de dramaturgia, cambaleou com ‘‘Mandacaru’’.

Selton Mello agradou em ‘‘A Indomada’’ e foi eleito melhor ator televisivoA reação do público, que abandonou temporariamente a Manchete, provou que a estética rústica de Avancini está ultrapassada. Matou-se um bando de cangaceiros, o elenco foi cortado pela metade, mas a novela ainda não emplacou. A exceção fica por conta do trio formado por Bemvindo Sequeira, Marília Pêra e Agildo Ribeiro.
Ainda que tenha levado os títulos de melhor novela, com ‘‘A Indomada’’, melhor ator, com Selton Mello, melhor atriz, com a imbatível Eva Wilma, e muitos outros quesitos teledramatúrgicos, a Globo também exibiu porcarias como ‘‘O Amor Está no Ar’’ e ‘‘Zazᒒ. A preferência ficou com programas antigos como ‘‘A Comédia da Vida Privada’’ e ‘‘Barrados no Baile’’. Nem mesmo o seriado ‘‘A Justiceira’’ convenceu. Em época de pouca criatividade, a solução é optar pelo tradicional.
Melhor Novela: A Indomada
Por mais que se diga que Aguinaldo Silva insiste sempre no mesmo tema a cada novela, há que se admitir que o autor de ‘‘A Indomada’’, que trabalhou em parceria com Ricardo Linhares, foi felicíssimo com sua mais recente trama folhetinesca. Depois de bons resultados com ‘‘Tieta’’, ‘‘Pedra Sobre Pedra’’ e ‘‘Fera Ferida’’, Aguinaldo e Ricardo quebraram não só o próprio recorde, como foram os recordistas de Ibope da década, com média de 56 pontos de audiência e picos de 60. Texto, elenco e direção deram um show e mereceram o primeiro lugar.
Pior novela: Canoa do Bagre
Sob o comando de Atílio Riccó, a Record resolveu reativar o núcleo de teledramaturgia. Obviamente, qualquer produção nacional é válida para abrir o mercado. Mas não só a novela ‘‘Canoa do Bagre’’, como as diversas minisséries com cunho religioso que foram exibidas ao logo do ano provam que apesar da emissora do Bispo Macedo não ter problemas com dinheiro, carece de bom gosto. Pela quantidade de artistas com uma certa projeção que foram vistos transitando pelas minisséries da Record, dá para perceber que a teledramaturgia de lá é um mercado que começa a ganhar importância.

Márcia Cabrita substituiu Cláudia Jimenez em ‘‘Sai de Baixo’’ e se deu bemAtriz Revelação: Márcia Cabrita e Samara Filippo
Este foi um ano em que vários nomes despontaram no vídeo. Não só Márcia Cabrita e Samara Filippo, mas também Adriana Londoo, que interpreta a Jaqueline, contaminada pelo vírus HIV, em Zazá, e Raquel Ripani, companheira de Adriana não só na novela como colega de quarto por trás das câmaras. Esta nova safra de atores tão jovens quanto bons mostra que a classe artística está cada vez mais preocupada em se aprimorar antes de estampar o rosto no vídeo. Márcia Cabrita tem o mérito de ter segurado as pontas no ‘‘Sai de Baixo’’ depois da saída tumultuada de Cláudia Jimenez. E Samara Filippo, por sua vez, mantém alto o nível de ‘‘Anjo Mau’’ num núcleo em que estão Lília Cabral e Luiz Salém.
Ator revelação: Emílio Orciollo Netto
Quando começou a gravar ‘‘Anjo Mau’’, como o romântico Bruno, apaixonado por Vívian, personagem de Taís Araújo, Emílio estava decidido a se empenhar. Havia estreado na tevê no finalzinho de ‘‘O Rei do Gado’’, como o sobrinho-neto de Geremias Berdinazzi, vivido por Raul Cortez. Ela já mostrava garra. Agora, numa novela inteira está deitando e rolando. Vale lembrar também os nomes de Matheus Rocha, de ‘‘A Indomada’’, e David Cardoso Jr., de ‘‘Zazᒒ, que mesmo estreando na tevê, também deram o seu recado.
Melhor ator: Selton Mello
Pode-se dizer que a atuação de Selton Mello em ‘‘A Indomada’’ foi um tanto controvertida. Ele terminou a novela com boa parte do público apaixonada pelo seu desempenho e outra grande parte odiando seu trabalho. Logo nas primeiras semanas de novela, a interpretação bem cuidada e minuciosa rendeu muitos elogios e o assédio da imprensa. Mas, conforme o tempo foi passando, sua atuação ganhou ares de caricatura e virou quadro obrigatório para qualquer imitador de festa infantil. No balanço final, o saldo foi positivo. Selton conseguiu se destacar mais que os concorrentes televisivos.
Pior ator: Victor Wagner e Ricardo Macchi
Victor Vagner e Ricardo Macchi são reincidentes. Eles conseguem a façanha de, a cada novo trabalho, parecerem ainda piores. Entra novela, sai novela, não conseguem dar o recado. O caso de Victor Wagner é ainda pior. Apesar de sua sofrível interpretação, ele continua tendo respaldo da direção de dramaturgia, que continua escalando-o para protagonizar as novas tramas. É lamentável que, depois de encabeçar os elencos de ‘‘Tocaia Grande’’, ‘‘Xica da Silva’’ e ‘‘Mandacaru’’, ele ainda não tenha aprendido como se faz. Ricardo Macchi vai pelo mesmo caminho. Prometeu melhorar depois do vexame de ‘‘Explode Coração’’, mas continua com a mesma interpretação tatibitate.
Melhor atriz: Eva Wilma
Eva Wilma estava cansada de interpretar na tevê mulheres sofridas que invariavelmente eram traídas pelos maridos. Logo, era de se esperar que Eva não deixasse escapar essa oportunidade de interpretar essa belíssima personagem criada por Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares. Como a Altiva de ‘‘A Indomada’’, Eva mostrou porque é disputada pelos autores e diretores globais quase a tapa. Fez o espectador acreditar que ela era profundamente má. Uma atriz ideal para personagens sob medida.
Pior atriz: Luiza Brunet
Luiza Brunet até tenta melhorar. Enquanto está fora do ar, dedica-se, faz aulas de fonoaudiologia para corrigir problemas na fala, e arrisca cursos de dramaturgia. Mas, cada vez que aparece no vídeo, ao mesmo tempo linda e exuberante mas atrapalhada diante das câmaras, fica evidente que ela não nasceu para a coisa. No caso de ‘‘Anjo Mau’’, em que vive a desocupada e rica Teresa, Luiza é estapeada por todos os lados. Não só pelo marido, interpretado por Mauro Mendonça, como pela filha, vivida por Alessandra Negrini. Definitivamente, Luiza Brunet era bem melhor nas passarelas.
Melhor autor/Roteirista: Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares
Mais uma vez, o estilo com doses generosas de realismo fantástico de Aguinaldo Silva se destacou no universo das novelas. ‘‘A Indomada’’, apesar dos insípidos protagonistas feitos por José Mayer e Adriana Esteves, conseguiu ser a novela de maior audiência da década de 90. Bateu a média de 56 pontos na reta final. Índice invejável, quanto mais porque 97 foi um ano concorrido em produções de novela. Quase todas as emissoras tinham uma novela no ar durante o primeiro semestre. É bem certo que o inglês com sotaque nordestino da fictícia Greenville causou estranheza no início da trama. Mas expressões como oxente e my God ficaram na cabeça do espectador.
Pior autor: Yoya Wursh (D. Anja), Lauro César Muniz (Zazá) e Ronaldo Ciambroni (Canoa do Bagre)
Yoya Wursh, Lauro César Muniz e Ronaldo Ciambroni acabaram ficando empatados como os piores autores de 97. Os três produziram textos deploráveis, que não sustentaram nem os melhores atores em cena. Yoya tinha Lucélia Santos como a protagonista de ‘‘Dona Anja’’ no SBT. Já Lauro César, que ficou conhecido por salvar novelas na Globo, meteu os pés pelas mãos tentando fazer graça com um elenco que contava com Fernanda Montenegro e Ney Latorraca. Ronaldo Ciambroni confinou numa história de pescador com requintes de aventura policial para fazer a primeira novela da Record em 20 anos. Impossível dizer qual dos três foi o pior.
Melhor diretor: Paulo Ubiratan
Esse ano calhou de Paulo Ubiratan estar à frente de duas novelas: ‘‘A Indomada’’ e, agora, ‘‘Por Amor’’. O estilo dos autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares difere completamente do romântico texto de Manoel Carlos. Mas em comum entre as duas novelas está o pulso firme de Ubiratan. Tido como exigente nos bastidores, tanto com o elenco como com a equipe técnica, o rigoroso jeito de Ubiratan de fazer novela se traduz em números. Se suas novelas são sucesso absoluto de público e ainda mantém a classe.
Pior Diretor: Atílio Riccó
Atílio Riccó reaqueceu o mercado de atores com o núcleo de dramaturgia da Record. Mas, gostando ou não, o padrão da Globo de fazer novela ainda serve de referência. Como a Record ainda está engatinhando, fica muito fácil detectar os problemas de novelas como ‘‘Canoa do Bagre’’. A idéia de abolir os cenários para baratear a produção até não foi das piores, mas deixou uma desagradável sensação de déja vú no ar. Afinal, o telespectador mais desavisado que ligasse em ‘‘Canoa’’ poderia pensar que a novela não passa de um remake pouco inspirado de ‘‘Tropicaliente’’ ou ‘‘Mulheres de Areia’’. Atílio até que atraiu grandes atores para seus projetos, como Gianfrancesco Guarnieri e Othon Bastos. Mas conseguiu transformar a colônia de pescadores da trama num dos núcleos de novela mais chinfrins da tevê.
(Veja os Melhores e os Piores do Telejornalismo em 97 na página 3).

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