Os marcianos contra-atacam

Livro, programa de rádio
e documentário na TV
celebram os 60 anos da
clássica transmissão
radiofônica de Orson Welles
Arquivo Folha
ReproduçãoO cineasta Orson Welles,
que morreu em 1985
Nelson Sato

Foi um susto e tanto. Mais do que o diretor de cinema Orson Welles poderia imaginar quando decidiu levar para o rádio na véspera do Dia das Bruxas (Halloween), há exatos 60 anos, a narração de uma fictícia invasão de marcianos na cidade americana de Grover’s Hill, em New Jersey.
O que seria apenas a dramatização pelo dial da obra ‘‘A Guerra dos Mundos’’, do escritor inglês H.G.Wells, transformou-se no próprio apocalipse com gente de cabelos em pé acreditando no que ouvia e correndo pra lá e pra cá como nas famosas cenas de pânico coletivo dos filmes de Hollywood.
ReproduçãoOrson
Welles no momento da
transmissão, há 60 anosMarco da história dos meios de comunicação de massa, o programa que foi ao ar no dia 30 de outubro de 1938 será homenageado hoje e amanhã no Brasil com uma série de eventos que incluem o lançamento de um livro acompanhado de um áudio-CD, a transmissão em rede nacional da versão brazuca do programa pela rádio Cultura AM de São Paulo e um documentário no canal pago GNT sobre o cineasta responsável por aquele perereco todo.
Na época, Orson Welles (1915-1985) era um jovem ator e diretor talentoso, mas ainda sem a fama que conquistaria mais tarde com o filme ‘‘Cidadão Kane’’, saudado corriqueiramente pela crítica mundial como a melhor obra cinematográfica de todos os tempos. Seu nome ficou para a posteridade, mas a peça radiofônica era na verdade de autoria de Howard Koch com a colaboração de Paul Stewart.
Welles imprimiu mais dinamismo e ‘‘veracidade’’ à história, reescrevendo o roteiro e tomando a frente da direção e produção (junto com a Mercury Players) do programa, além de ‘‘protagonizar’’ na transmissão um professor da Universidade de Princeton que lidera a resistência da invasão marciana.
Combinando elementos específicos de radioteatro (ou seja, da ficção) com os existentes nos noticiários da época (o verossímil, a realidade convertida em relato), o programa ficou no ar durante uma hora e alguns minutos, a partir de 9 da noite. A transmissão foi feita pela rádio CBS (Columbia Broadcasting System) e suas afiliadas de costa a costa dos Estados Unidos.
ReproduçãoCapa do livro que a Siciliano lança hojeReportagens externas, entrevistas com pretensos envolvidos e demais recursos foram usados como se fossem uma verdadeira cobertura jornalística. A transmissão teve direito até ao pronunciamento de uma hipotética autoridade oficial admitindo a gravidade da situação e pedindo calma aos moradores.
A CBS calculou que a audiência girou em torno de seis milhões de pessoas, das quais a metade passou a sintonizar o programa após sua introdução, na qual Welles informava tratar-se do radioteatro semanal apresentado pela emissora. Uma multidão tomou a trama narrada como fato verídico, acreditando mesmo que os extrarrestres estavam aterrissando em seus quintais. Nas casas e ruas, teve de tudo: gritos, choradeira, preces, congestionamentos, sobrecarga de linhas telefônicas, ligações intermináveis à polícia, o escambau.
Para explicar o fenômeno, várias circunstâncias históricas já foram enumeradas, entre as quais a divulgação de obras de ficção científica aventando a hipótese de haver vida inteligente em outros planetas, a insegurança diante das tensões políticas que prenunciavam novos conflitos bélicos entre os países e a credibilidade no jornalismo e na ciência.
É a proporção dessa experiência, que demonstrou o poder de influência da mídia, o tema dos artigos reunidos no volume ‘‘Rádio e Pânico: a Guerra dos Mundos, 60 anos Depois’’, que será lançado hoje com sessão de autógrafos nas livrarias da rede Siciliano em várias capitais do País. O livro foi organizado por Eduardo Meditsch, Doutor em Comunicação e professor da Universidade Federal de Santa Catarina.
Além dos textos teóricos, traz a tradução brasileira do roteiro radiofônico e um CD com a transmissão integral de ‘‘A Guerra dos Mundos’’. É este CD que vai ao ar hoje, a partir de 20 horas, pela rádio Cultura AM e suas afiliadas. A versão foi produzida pela Associação dos Artistas da Era de Ouro do Rádio de Pernambuco, encabeçada por Luiz Maranhão Filho.
Também lembrando o clássico radiofônico, o canal de TV paga GNT exibe amanhã um especial sobre Orson Welles, na série Grandes Nomes. O programa vai ao ar às 16 horas, dando uma geral na obra do cineasta, que começou sua carreira produzindo e atuando em espetáculos de teatro, muitos deles transformados em peças radiofônicas.
Foi numa dessas, quando já assumia a direção de um programa semanal de adaptações de textos literários na CBS, que ele pôs os Estados Unidos de pernas para o ar dividindo a história do rádio entre antes e depois de sua célebre transmissão.

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