Em meados da primavera de 2003, nas linhas Londres-Paris da companhia ferroviária EuroStar, um 'fenômeno' inusitado e aparentemente inexplicável acontecia; livros de capa vermelha começaram a ser encontrados em vários bancos, banheiros e telefones públicos espalhados pela plataforma. Pela primeira impressão, os seguranças e passageiros assumiam que os livros deixados para trás eram simplesmente esquecidos por pessoas que embarcavam, mas a multiplicação dos exemplares, dia após dia, eliminaram essa possibilidade. A obra era ''O Código da Vinci'', do então desconhecido autor americano Dan Brown.
O misterioso abandono de centenas de exemplares do romance policial transformou-se em um verdadeiro enigma, aguçando a curiosidade das milhares de pessoas que viajavam diariamente por estas linhas de trem - alguns diziam que a obra estava sendo produzida em excesso, causando o desperdício; outros acusavam a 'má qualidade' da trama como o principal fator de tamanha impiedade literária. Apesar das reclamações, as vendas do livro alcançaram o topo da lista dos mais vendidos em todo o mundo. O caso foi finalmente resolvido em 2006, quando a EuroStar revelou uma grande parceria na divulgação do filme ''O Código da Vinci'', baseado no best-seller. Espalhar livros pelas linhas que levavam até Paris - principal cidade da trama - acabou sendo desvendada como uma jogada certeira de marketing, e o fato se transformou em um dos casos de BookCrossing mais bem sucedidos na divulgação de um produto.
Nascido sem nenhuma ambição comercial, o conceito de BookCrossing foi criado em 2001 por Ron Hornbaker - fundador do site bookcrossing.com - e tem uma essência caridosa. Em resumo, livros que já foram lidos são cadastrados gratuitamente através do site, recebem um número de identificação e depois são 'libertados' em algum lugar público, com um nobre objetivo: transformar o mundo todo em uma enorme biblioteca. ''É muito melhor do que deixar livros empoeirados em cima das prateleiras'', afirma Bruno Mazetto, instrutor de yoga da escola do Método DeRose que, junto com seus alunos, vai começar a partir de hoje a espalhar mais de 500 obras literárias por diversos pontos de Londrina. ''Nós conseguimos isto tudo através de um movimento de arrecadação dentro da escola, nós cadastramos e vamos 'libertar' estes livros de uma só vez'', declara o professor, orgulhoso pela variedade de autores arrecadados e apontando esta como a maior ação do tipo já realizada na cidade.
Como um movimento global, a comunidade de 'bookcrossers' já conta com mais de 850 mil membros e seis milhões de livros registrados. No Brasil, existem cerca de sete mil praticantes que doam/libertam regularmente seus livros para outras pessoas. ''Recebi um livro do escritor Maurice Leblanc, 'As 8 pancadas do relógio'. É um livro que mistura suspense, mistérios e aventura'', relembra Luana Maffei, aluna do Método DeRose que foi beneficiada pelo BookCrossing e que agora está libertando seus próprios livros. ''Eu não conhecia esse autor, e acredito que o bookcrossing cria uma maior disposição das pessoas em arriscar no desconhecido. Afinal, só estamos pegando o livro emprestado, e se não agradar é só repassá-lo de novo'', explica Luana.
Outro destaque interessante no BookCrossing é que, através do número de identificação colado na contracapa de livros 'libertados', é possível para quem recebeu a obra entrar no site e comentar sobre o presente recebido. ''A ideia de compartilhar um livro com uma pessoa que você não conhece, e saber através do site as opiniões dela sobre o texto, por onde o livro anda circulando, é muito bacana'', ressalta Mazetto, indicando essa como uma das principais vantagens do BookCrossing. ''Passar os livros adiante é na verdade se desapegar de objetos que só ficavam ocupando espaço, e que agora serão aproveitados por outras pessoas, quem sabe em outras cidades ou até em outros países'', reflete Luana, animada. ''Vamos espalhar os livros em pontos movimentados de Londrina, para eles não correrem o risco de ficar esquecidos e desaproveitados'', indica o professor. Fica a dica.

mockup