Vale mesmo somente o título original, neste caso não há porque traduzir, ''clean'' aqui pode ser muitas coisas, limpo, inocente, livre, desimpedido, puro, imaculado, sem culpa, livre da droga. ''Clean'', estreando hoje no circuito local (confira a programação de cinema na página 2), é o 11º filme de Olivier Assayas, jovem e interessante diretor saído dos quadros da crítica dos Cahiers du Cinema, ainda hoje a bíblia francesa do filme. Foi pouco lançado no Brasil, mas tem reputação sólida. É sempre provocador, o que o torna confiável.
Emily, a protagonista (Maggie Cheung, ex-mulher, mas ainda musa do diretor), é roqueira decadente e viúva recente depois da morte do marido por overdose. É presa por porte de heroína e cumpre pena de seis meses. Quando sai, decide batalhar pela custódia do filho que está por conta do avô paterno (Nick Nolte). Mas isto só vai acontecer se ela se livrar da dependência.
''Clean'' é basicamente uma história sobre a mudança, sobre os limites ou mais precisamente, sobre a destruição destes limites, quando a mudança se faz urgente. Tudo gira em torno de Emily, e isto não é uma forma simplesmente de dizer que ao redor tudo gravita, a câmera, os fatos, os demais personagens, as situações, os espaços. O que o filme deixa claro é que ela precisa ter controle, primeira sobre ela mesma, e depois de sua realidade. Precisa demonstrar que está ''limpa'', porque precisa recuperar o filho.
Por isto, é preciso dizer que não se trata de um filme leve ou luminoso. Ao contrário. É intenso, desesperado, embora contido na superfície. Não é apenas a idéia de uma mãe fazendo o impossível para voltar a ser mãe. É a maneira como a excepcional Maggie Cheung, merecidamente melhor atriz em Cannes-2004, empresta corpo e voz a esta mãe que a câmera captura com rara propriedade.
À medida que ''Clean'' avança, se aproxima a redenção ou a catástrofe. E o filme se abre também à emoção. Não há exaltação ou glamour, não há exibição de atrocidades no filme de Assayas. Há sim, por outro lado, isto que ultimamente não está mais se vendo em cinema, uma qualidade talvez difícil de definir, algo que tem a ver com a vida mesma e a maneira como ela nos envolve, com nossa própria memória da morte, da perda e da dor, com determinados momentos de providencial generosidade, com as cores da tristeza e com a solidão e sua sonoridade.
Assayas nos fala muito de perto já nem tanto da gana de viver, mas da necessidade de continuar na luta que grande interpretação, atormentada mas contida e modulada, a deste Nick Nolte, trazendo no trágico mapeamento do rosto toda a devastação que a droga infligiu a ele na vida real até pouco antes de iniciadas as filmagens. Há comentários ainda a desfrutar sobre a frustrada criatividade artística, sobre a maternidade abortada...enfim, sobre a vida, ao som de uma trilha sonora que também imprime o ritmo a ''Clean''. (C.E.L.J.)

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