'Os Inquilinos' incomoda e provoca
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
''Tudo acontece e não acontece nada. É a luta de um cara que só quer viver bem.'' Essa é a melhor definição para o longa brasileiro ''Os Inquilinos'', que estreiou esta semana no País. Esse, aliás, é o resumo do próprio diretor, o ponta-grossense Sérgio Bianchi, que, com esta produção, chega ao sétimo trabalho, em filmografia que tem como destaque ''Cronicamente Inviável'', de 2000.
A história de ''Os Inquilinos'' acontece em um passado recente, durante os dias de atentados do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo. Vivem mais próximos desse cenário de guerrilha urbana o casal formado por Valter (Marat Descartes), funcionário de uma transportadora de frutas, e Iara (Ana Carbatti), dona de casa. Ambos veem o cotidiano da casa na periferia onde moram mudar com a chegada de três moradores à residência vizinha.
Valter divide seu tempo entre o trabalho, os estudos e a criação dos dois filhos. Iara, que passa mais tempo em casa com os afazeres domésticos, logo nota que os novos vizinhos mantêm hábitos noturnos um tanto suspeitos. O incômodo do barulho, a movimentação estranha e o comportamento nada cortês dos inquilinos passa a perturbar o casal.
Diferente de muitas das recentes produções que buscam o retrato social brasileiro por meio dos modelos narrativos hollywoodianos, Bianchi, que defende uma linguagem nacional, evita o ritmo de ''Cidade de Deus'', por exemplo. Tudo é mais lento e simples, mais racional, cru e, de certa forma, incômodo.
Valter é quase um não-protagonista, ele simplesmente se torna um impessoal fio condutor para a narrativa. É ''espancado'' emocionalmente de várias formas, no trabalho, na escola, em casa, pelo chefe, pelos vizinhos, pelos colegas de classe. E simplesmente não reage.
Esse é, na verdade, o grande mérito do filme. Mostrar que o povo já se acostumou com a violência e a injustiça. Destacar que as esperanças se esgotaram pela falta de alternativas para lutar. E de fazer isso tudo incomodar, sem apelar para a violência estilizada, e emocionar, sem ser piegas. Uma provocação, para quem ainda consegue se indignar.


