São Paulo, 20 (AE) - Há uma corrente anticanônica no cinema americano formada por diretores que rejeitaram o modelo do cinema industrial em troca da invenção. A matriz desse novo cinema, paradoxalmente, é o velho cinema, o mudo, puro dentro de seu esquema simplista, mas tremendamente complexo na crítica às convenções sociais. O cinema de Stanley Tucci não é ingênuo a ponto de ignorar a relação mimética entre sexo, indústria e cinismo. Tucci faz filmes críticos, poderosos o suficiente para demolir a lógica da indústria sem perder o traço fundamental da comédia muda: a força de um dialeto cinematográfico que muitos julgavam perdido no tempo. "Os Impostores" é a prova da atualidade e pureza desse dialeto.
Vai ser difícil encontrar um concorrente para Tucci neste fim de semana. "Os Impostores" não fala de mundos estranhos habitados por paranóicos vestidos de preto, mas é muito divertido. Seus dois principais personagens são atores desempregados tentando sobreviver em plena Depressão (o próprio Tucci e o extraordinário Oliver Platt). A época já rendeu grandes filmes trágicos como "A Noite dos Desesperados", mas poucas comédias. Afinal, rir da recessão e de gente esfomeada ofende a estreita observância da crítica correta. Tucci ignora-a. Seu negócio é demolir instituições. Não poupa sequer o cinema.
Numa sequência hilariante, em que a dupla Tucci/Platt testemunha a histriônica interpretação de Hamlet por um canastrão, o primeiro comenta que ele não serviria sequer para trabalhar no cinema, quanto mais encarnar o príncipe dinamarquês no teatro. A crítica é dirigida à maníaca fixação dos contemporâneos em Shakespeare. Milionários e pouco talentosos astros de cinema bancaram um assombroso número de filmes medianos baseados ou inspirados no dramaturgo inglês, esvaziando o conteúdo de uma obra que, decididamente, não precisa do cinema para sobreviver.
Profeta de um segundo momento do cinema, Tucci elege a reinterpretação como meta. Todas as gags, todas as histórias do cinema mudo estão presentes em "Os Impostores", embora Tucci não faça cinema mudo. Reinterpreta o dialeto visual de Chaplin, Keaton e da dupla Laurel e Hardy à luz da modernidade, sofisticando essa aventura primal do cinema, de natureza bruta e hierática. A certa altura, um terrorista estrangeiro ameaça explodir o navio de cruzeiro em que os dois atores desempregados entram como clandestinos. Oliver Platt, escondido sob a cama, não entende o que diz o terrorista. Legendas em inglês correm de um lado a outro, provocando uma das cenas mais hilariantes do filme.
Como uma screwball comedy, a comédia em que tudo ocorre num ritmo vertiginoso, a de Tucci explora o caráter dinâmico do gênero, renovando o genuíno non sense da comédia muda. Nessa nau dos insensatos cabem todos: um cantor beberrão e deprimido (Steve Buscemi), um ator canastrão que persegue a dupla de atores desempregados (Alfredo Molina) e uma rainha destituída que não perde a pose (Isabella Rosselini, numa paródia à própria mãe, que foi a amnésica princesa Anastácia no cinema). Tucci e Platt são os heróis: ficam sabendo que a vida da rainha corre perigo e que o navio está prestes a explodir, provocando uma nova guerra.
A farsa bem poderia ser uma parábola política. No caldeirão étnico do navio estão ricos africanos e alemães nazistas, mas a comédia não caminha nessa direção. Tucci queria fazer um filme movido por personagens engraçados, não pela história, que, de resto, segue o imbróglio temático das comédias do gênero. Conseguiu mais do que pretendia. "Os Impostores" não é apenas uma revisão da lição inaugural do cinema. Longe de ser o portador de uma mensagem nostálgica, Tucci aponta para o futuro do cinema como língua escrita da realidade. Demonstra a tese principal do cinema pasoliniano, a de que a primeira linguagem do homem é a sua ação. Ainda que desarticulado, o discurso de Tucci contradiz a gramática do cinema industrial americano, usando e abusando de sua sintaxe.
Exemplo disso é a sequência inicial, em que a dupla de atores desempregados ensaia uma cena num restaurante, representando como na época do cinema mudo, antes de embarcar na sonora confusão provocada pela briga com o falante ator canastrão. Como indivíduos, ambos reagem contra a estrutura convencional de interpretação, impondo um sistema estilístico alternativo para salvar o teatro e o cinema da miséria formal. Quando a confusão coloca a dupla em fuga, sente-se que Tucci não está apenas fazendo uma comédia caótica, mas falando de gente socialmente excluída que tenta sobreviver numa nau sem rumo. Mas deliciosamente divertida. SERVIÇO - Os Impostores. Comédia. Direção de Stanley Tucci. Com Stanley Tucci, Oliver Platt, Isabella Rosselini, Campbell Scott. Duração: 101 minutos. Distribuição: Fox Film do Brasil

mockup