O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS em inglês), publicado no dia 5 de maio pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), avaliou o desempenho de mais de 2.500 crianças brasileiras em áreas de desenvolvimento como literacia e numeracia emergentes, funções executivas e habilidades socioemocionais.

As pesquisas e coleta de dados no Brasil foram feitas em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e coordenado pelos pesquisadores Mariane Koslinski e Tiago Bartholo, do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ).

Estudos que realizam essas avaliações e diagnósticos são importantes para auxiliar professores, pais e responsáveis na identificação de pontos positivos e negativos vistos nas salas de aula brasileiras, em busca de melhoria da qualidade do ensino. Edilene, 32, formada em pedagogia, e que atua na área da educação a mais de 10 anos descreve essa importância. "Ele traz um retrato científico de uma metodologia do que a gente vê na sala."

A pesquisa, utilizando como base a média internacional (500 pontos), mostrou as dificuldades da educação brasileira já presentes no final da pré-escola, apresentando bons resultados em literacia (502 pontos) e empatia (501), mas números inferiores à média internacional nas áreas de numeracia emergente e funções executivas (como a capacidade de armazenar e manipular informações). Essas diferenças podem ser explicadas tanto por fatores sociais e econômicos, como também o uso excessivo de telas.

No mesmo estudo, responsáveis e cuidadores foram entrevistados e relataram que mais de 50% das crianças utilizam dispositivos digitais em casa todos os dias, e embora o estudo relate que não é possível estabelecer relação de causa e efeito, os resultados indicam que o uso diário de tela está associado a níveis mais baixos de aprendizagem, reforçando a importância do uso mediado e equilibrado.

Para Edilene, esse uso diário e excessivo de telas, principalmente em crianças na educação infantil pode trazer dificuldades no desenvolvimento da fala, no relacionamento com outras crianças e também na concentração em sala de aula. "Eu brinco com eles que eu não sou um vídeo do TikTok ou do Instagram que você (aluno) pode rolar para cima quando te entedia. A nossa fala enquanto professor dura 30 minutos ou até mais, e eles tem dificuldade de manter esse foco, porque na tela o vídeo dura 3 minutos no máximo." A professora ainda reforçou que a importância da conversa entre professor e pais ou responsáveis para diminuir o uso de telas e diminuir esses impactos já presentes aos 5 anos de idade.

Outro fator relevante para a diferença nos resultados é o NSE (Nível Socioeconômico), indicando que a desigualdade nos níveis econômicos afeta o nível de aprendizagem das crianças, enquanto 80% das crianças de NSE alto dominam o reconhecimento de numerais, esse índice cai para 68% entre as de NSE baixo, evidenciando que os problemas relacionados as desigualdades sociais e econômicas no país já mostram consequências na fase da pré-escola (4 a 5 anos).

Professora da rede municipal, Edilene retrata as dificuldades impostas pela desigualdade socioeconômica "Impacta bastante. As famílias que são mais estruturadas, tanto financeiramente como socialmente, a criança ela tende a se desenvolver melhor, a gente tem casos ali de crianças que são de abrigos, que a guarda ela foi retirada ou suspensa da família e são crianças em situação de vulnerabilidade. Então, por exemplo, se essa criança tem um diagnóstico, ela não tem acesso a um neuropediatra, apenas via SUS, então para ela já tem uma situação econômica, porque ela não consegue ter esse acesso mais fácil a um medicamento, a consulta, a uma terapia, recursos que uma criança mais abastada teria."

Como foi realizado o estudo

Realizado nos estados do Ceará, Pará e São Paulo, o estudo seguiu cinco fases principais: adesão (2022), adaptação cultural e aprovação ética (2023), pré-teste e treinamento (2024), coleta de dados (2025) e análise com divulgação (2026), com pesquisadores treinados visitando as escolas.

Para a coleta de dados, cada criança realizou quatro atividades curtas (até 15 minutos cada) em tablets com áudios pré-gravados, de forma lúdica e com perguntas que se ajustavam ao nível de resposta da criança, para garantir uma experiência acolhedora.

Professores, pais ou responsáveis também preencheram questionários com informações sobre cada criança, como parte da avaliação.

*ESTAGIÁRIO COM SUPERVISÃO DE PATRÍCIA MARIA ALVES - EDITORA

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