Wilson BuenoOs Ilusionistas
Saudades do Brasil
Deitado em sua rede, no terraço da cobertura da Barão da Torre, em Ipanema, o escritor Rubem Braga, quando inspirado, costumava ser sublime.
Nas cadeiras próximas da rede onde dormitava o Urso, formávamos, de ordinário uma audiência atenta, este vosso croniqueiro, o cineasta Luís Carlos Lacerda, o ‘‘Bigode’’, e, vez em quando, Isabel Câmara, dramaturga premiada e paparicada, hoje completamente esquecida no seu já longo ‘‘auto-exílio’’ em Goiás.
Uma tarde, posto que o calor estivesse senegalês, o Urso (apelido póstumo conferido a ele por José Castello, numa biografia memorável) recorda o Marrocos, onde foi embaixador, e conta uma estória para além de toda crônica: com saudades do Brasil, sintonizava sempre o dial de seu velho rádio, na Tupi.
Desta feita, em meio a chiados e ruídos estranhos, esbarra com exasperante dificuldade para sintonizar a emissora carioca, o que não era nada incomum. Quando isto acontecia, costumava desligar o rádio e passar à sua vitrola Phillips onde ouvia, deliciado, de preferência Caymmi ou João Gilberto.
Esta noite, garantia ele - que dormitando na rede parecia sonhar - o rádio ‘‘ligou’’ sozinho antes mesmo que encontrasse na estante o disco de Caymmi e, pelo alto-falante, ouviu nítido: ‘‘Aqui, Rádio Tupi. Uma emissora dos diários associados, falando do Rio de Janeiro para o mundo. A seguir, na estréia do programa ‘Dedicatória’, ouviremos uma seleção das melhores canções de Dorival Caymmi, procedida pelo próprio compositor e especialmente dedicada ao poeta e embaixador do Brasil, no Marrocos, o sr. Rubem Braga.’’
- Poeta, eu? - foi o que grunhiu o Urso, em comentário ao acontecimento espantoso, pedindo licença e virando-se, na rede, de costas para nós - o que era a já conhecida - e consentida - senha com que parecia pedir que o deixássemos a sós com a sua irremovível preguiça.
A terceira margem
O escritor que contava esta estória de escritor, era João Condé, lá no início dos setenta, na redação do ‘‘Jornal de Letras’’, em Copacabana: ao final de uma bela tarde de junho, Guimarães Rosa, o diabólico autor, entre outros, de ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, deixa o Itamaraty e decide andar a pé um trecho do centro da cidade.
Súbito, distraído a fumar seu Yolanda, na ponta da piteira de osso de tartaruga, flagra-se, ao fragor e tumulto do trânsito da hora do rush, bem no meio da Presidente Vargas que, para quem não sabe, é larga avenida, de quatro pistas, no centro nervoso do Rio.
Homem sensível, de traço feminil, ao perceber-se engolido pelo tráfego pesado, literalmente no meio da rua, Rosa quase tem um chilique. Salva-o o talento de predestinado das Letras: tomando a avenida como a metáfora de um rio, fulmina-o, naquele exato instante, a idéia do que viria a ser uma das mais antológicas peças da literatura brasileira, e de todas as literaturas, o conto ‘‘A Terceira Margem do Rio’’. A peça inteira, com seu começo, meio e fim lhe vem à mente, de um jeito mediúnico e, como se vê, de modo rigorosamente imprevisto.
Guimarães Rosa, nervoso, ofegante, segue incólume por entre carros, buzinas, urros, freadas, desvios, acenando inutilmente para um táxi, e caminhando na direção do primeiro ponto de ônibus. Não há tempo a perder.
O terno elegante encharcado de suor, embarca no primeiro lotação que o leve ao Posto Seis, onde vive com Araca, a sua sempre Araci, no belo apartamento da rua Francisco Otaviano, no que, anos depois, ele próprio detalharia, em depoimento célebre: era como se equilibrasse aos ombros, sem figura de retórica, uma cristaleira mesmo, onde tremelicavam, impávidos, os mais finos cristais - personagens, diálogos, entrechos, tons, entretons, linguagem, embocadura, toda a dobrante e dobrável estrutura de ‘‘A Terceira Margem do Rio’’.
‘‘Sabe do que Rosa mais teve medo aquele dia?’’ - perguntava o bom Condé, fazendo uma pausa e já ante-gozando a resposta. ‘‘O maior medo dele foi, aquele dia, o de topar com um amigo, sobretudo carioca...’’
‘‘Como assim?’’
‘‘Temia, a sério, um abraço, desses efusivos e espalhafatosos, que só os cariocas sabem dar, e que fizesse desabar a cristaleira...’’

mockup