OS HOMOSSEXUAIS NO CINEMA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de dezembro de 2001
Agência Estado 
Antônio Moreno, cineasta, pesquisador e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), lança hoje, no Espaço Unibanco de Cinema, em São Paulo, o livro ''A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro'', fruto de parceria entre a Funarte e a EdUFF, que nasceu como tese de mestrado defendida na Universidade de Campinas (Unicamp), em 1995. Cinquenta fotos de alguns dos mais importantes filmes brasileiros que têm o homossexualismo como tema central ou secundário ilustram o livro. Moreno levantou 125 produções em arquivos de papel e cinematecas. Só conseguiu acessar 67 deles, em vídeo ou película.
O leitor se espantará com a inclusão de ''Deus e o Diabo'' (Glauber/64), ''Sargento Getúlio'' (Hermano Penna/82), ''Memórias do Cárcere'' (Nelson Pereira/84), além de duas ingênuas chanchadas, ''Carnaval Atlântida'' (Burle/42) e ''Os Dois Ladrões'' (Manga/60) no inventário de filmes que abordaram o homossexualismo. Colocados ao lado de ''Rainha Diaba'' (Fontoura/75), ''República dos Assassinos'' (Miguel Faria/79), ''Beijo da Mulher Aranha'' (Babenco/84) e ''Romance'' (Bianchi/88), parecem ''estranhos no ninho''.
Antônio Moreno justifica tais inclusões ao lembrar sequências que, por serem secundárias na narrativa, ficaram esquecidas na memória do espectador. No caso de ''Deus e o Diabo'', ele registra a cena em que Dadá (Sônia dos Humildes), mulher de Corisco, beija Rosa (Yoná Magalhães), mulher do vaqueiro Manuel, na boca.
A citação de ''Sargento Getúlio'' se deve ao fato de a personagem principal, toda vez que quer referir-se a algo fraco, covarde recorrer a corruptelas de vocábulos ligados ao homossexualismo. No caso de ''Memórias do Cárcere'', as cenas de homossexualismo se referem ao relacionamento de dois presos.
Depois de inventariar 125 filmes e analisar 67, Antônio Moreno chega a conclusões desanimadoras. Os cineastas brasileiros - com raras exceções - vêm o homossexual como um ser desprovido de humanidade, que habita ambientes sórdidos, veste-se de forma espalhafatosa, é alienado política e socialmente e carrega violência exacerbada.
Homossexuais com bons empregos e relações estáveis, baseadas em laços afetivos e não no sexo pago, são raríssimos. Moreno analisa o thriller pop-gay-black ''Rainha Diaba'', de Antônio Carlos Fontoura, que firmou o prestígio de Milton Gonçalves como um dos maiores atores do País. Diaba, a personagem-protagonista é uma criação de Plínio Marcos, que se inspirou em figura real (Madame Satã). Ela comanda império de crime e violência. Para o ensaísta, o filme traz ''conotação pejorativa e estereotipada'' para a imagem dos homossexuais. ''Todos convivem com realidade extremamente violenta, são obsessivos e sádicos.''
Em compensação, Moreno só tem elogios para filmes como ''O Menino e o Vento'' (Christensen/66), ''Marília e Marina'' (L.F. Goulart/76), ''Vera'' (Sérgio Toledo/86), ''Leila Diniz'' (L.C. Lacerda/88), ''Romance'' (Bianchi/88) e ''Cinema de Lágrimas'' (Nelson Pereira/95). ''A Menina do Lado'' (Alberto Salvá/1988), no qual Sérgio Mamberti interpreta um homossexual maduro, amigo e conselheiro da ninfeta (Flávia Monteiro) pela qual Reginaldo Farias se apaixona, ganha avaliação positiva e afetuosa. Mesmo caso de ''O Beijo da Mulher Aranha'' (Babenco/84), cujo protagonista, o homossexual Molina (William Hurt), se modifica na convivência com um preso político (Raul Julia).


