Os homens vão à caça
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de janeiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Tão logo o cinema descobriu o fascínio do espectador diante de locações distantes e exóticas (mesmo se fossem fielmente recriadas nos amplos quintais dos estúdios), a África marcou forte presença em Hollywood. E sempre como o velho e misterioso continente negro, selvagem, abundante, indomado e colonial. Mas assim como o western, o musical, o filme de gangster, o drama de guerra e os épicos históricos foram caindo em desuso, também os romances que tinham como cenário as extensas savanas aos pés do Kilimanjaro foram esquecidos e terminaram seus dias como fantasmas nas nostálgicas madrugadas televisivas. Assim, a princípio, um filme como A Sombra e a Escuridão (veja programação na página 3), em lançamento nacional, pode ser saudado como uma espécie de revival isolado de um subgênero que floresceu por volta dos anos 40 e 50 muito ligado a grandes mitos do então poderoso star system, como Clark Gable, Errol Flynn, Ava Gardner, Gregory Peck e Grace Kelly.
Assinado pelo escritor William Goldman, um dos bons roteiristas do cinema americano e responsável, entre outros, pelo inspirado script de Butch Cassidy and the Sundance Kid, de 69, A Sombra e a Escuridão propõe uma retomada da África mitológica a partir de uma lenda que mistura medo, mistério, aventura, dignidade nativa e equilíbrio ecológico. Apesar do título à primeira vista parecer um eco da narrativa existencial do romance de Joseph Conrad , The Heart of Darkness(O Coração das Trevas), na verdade A Sombra e a Escuridão são dois leões adultos e eventualmente transformados em comedores de gente. Goldman esteve na África em 84, e ouviu contar a história em circunstâncias encantatórias e muito propícias a vôos de imaginação: ao redor de uma fogueira, quase anoitecendo, cercado por uma dezena de membros da tribo Masai. Segundo o narrador, por volta de 1898, na região de Tsavo, África Oriental, os dois leões chegaram a devorar 130 nativos em alguns meses. Para Goldman, a lenda dos leões matadores é ainda pouco conhecida nos Estados Unidos porque, diz ele, quando os americanos vão ao cinema eles querem solução para as questões, e não mais questões. A história desses animais de Tsavo, metade verdade, metade lenda, ainda hoje é um grande mistério. E continuará a ser.
ProduçãoCercada pelos habituais cuidados, a produção da Paramount levantou vôo para a África do Sul, mais particularmente para a Reserva Songimvelo Game, onde durante 16 semanas uma equipe de quase 400 pessoas realizou as filmagens de The Ghost and the Darkness. Alí foi ambientada a história dos dois poderosos predadores e de seus implacáveis caçadores, Remington (Michael Douglas), um profissional veterano e cético, e Patterson (Val Kilmer), tenente e engenheiro contratado pelo governo inglês para constuir uma ponte sobre o rio Tsavo. Ao contrário da afiadissíma dupla de shaitaini ou demônios da noite, como eram chamados os leões pelos africanos em pânico, os dois caçadores são obrigados a contornar suas divergências pessoais em nome da própria sobrevivência, já que os espertíssimos leões resolvem ter um dia especial da caça. O confronto entre os predadores é o grand finale. O estrelato em A Sombra e a Escuridão é dividido entre Douglas, Kilmer e os cinco leões especialmente treinados para fazerem o papel de apenas dois. A propósito, os bichos teriam outra companhia, caso Tom Cruise e Kevin Costner não tivessem recusado o personagem que acabou com a cara de Val Kilmer - e até Mel Gibson chegou a ser por um momento escalado. Quem dirige é Stephen Hopkins, realizador de filmes B mas com alguns trabalhos razoavelmente bem acabados, como O Predador 2.


