Perto dele, os velhos discursos feministas ficam parecendo intriguinhas de colegiais. O ‘‘Scum Manifesto’’, talvez o mais inflamável texto já escrito contra o sexo masculino, finalmente chegou às livrarias brasileiras. O lançamento é da editora Conrad, a mesma que publicou no ano passado o provocativo volume ‘‘Assalto à Cultura’’.
Desbocado e profano, o ‘‘Scum Manifesto’’ é leitura intragável para mulheres que ao longo desta década substituíram o termo feminismo pela definição politicamente correta de ‘‘questão de gênero’’. ‘‘O macho é um acidente biológico’’ – proclama as primeiras linhas do panfleto. ‘‘O gene Y (macho) é um X (fêmea) incompleto, ou seja, tem um conjunto incompleto de cromossomos. Em outras palavras, o macho é uma fêmea incompleta, um aborto ambulante, mutilado no estágio de gene’’.
Valerie Solanas (1936-1988), a autora, ganhou notoriedade depois de mandar o papa da pop art Andy Warhol para o hospital disparando-lhe um tiro no pulmão. ‘‘Eu considero isso um ato moral. Imoral foi eu ter errado. Deveria ter treinado mais’’ – declarou a um jornalista. Pelo gesto, foi internada numa clínica psiquiátrica e posteriormente condenada a três anos de prisão.
Escreveu o ‘‘Scum Manifesto’’ em 1967, rodando 150 exemplares em mimeógrafo, os quais vendia nas ruas onde também se prostituía. Um ano depois, foi publicada pela Olympia Press, uma editora francesa que ostentava em seu catálogo títulos como ‘‘O Almoço Nu’’ de William Burroughs, ‘‘Trópico de Câncer’’ de Henry Miller e ‘‘Lolita’’ de Nabokov.
A Newsweek dedicou-lhe uma resenha definindo o panfleto como ‘‘um discurso de intensidade fanática e selvagemente perspicaz e divertido’’. A repercussão do lançamento provavelmente tenha sido mínima, diluída em meio à profusão de manifestos radicais que vieram à tona no mesmo período. Em ‘‘Scum’’, Solanas destila violência verbal anarquista.
Prega a subversão do governo, a extinção do sistema monetário, a instauração da automação completa e a destruição do sexo masculino. ‘‘O que vai libertar as mulheres do controle dos machos é a total eliminação do sistema dinheiro-trabalho, e não a obtenção da igualdade econômica entre os sexos neste sistema’’ – escreve ela num trecho.
‘‘Scum’’, escória em inglês, é usado pela autora como sigla de ‘‘Society of Cutting Up Men’’ (Sociedade para Fazer Picadinho dos Homens). O texto de apresentação da edição brasileira informa que o rótulo de ‘‘maluca anti-homem’’ serviu tanto para imprensa sensacionalista tentar transformar Solanas em figura folclórica, como para as alas ‘‘respeitáveis’’ do movimento feminista a isolarem de suas fileiras.
Se Betty Friedan conclamava as norte-americanas a fazer greve de sexo para lutar contra a exploração masculina, Solanas ia além defendendo a total abstinência, a assexualidade. ‘‘O sexo é o refúgio dos tolos’’ – anotou ela. ‘‘É uma experiência solitária, não criativa, uma grande perda de tempo. A fêmea pode facilmente – muito mais facilmente do que pensa – condicionar-se para afastar seu impulso sexual, ficando totalmente tranquila, cerebral e livre para perseguir relacionamentos e atividades com algum valor real. Se a fêmea transcender seu corpo, se ela se elevar acima da bestialidade, o macho, que tem seu ego constituído pelo pênis, desaparecerᒒ.
A artilharia verbal é implacável não poupando sequer as instituições sagradas. Família? Um casal macho-fêmea e seus filhos (a desculpa para a existência da família), que vivem controlando uns aos outros, violando inescrupulosamente os direitos, a privacidade e a sanidade da fêmea. Arte? Um um mundo simbólico e obscuro criado pelos homens numa tentativa desesperada de fugir ao horror de uma existência idiota.
Na pequena biografia que acompanha o manifesto, consta que Solanas foi abusada sexualmente pelo pai e chicoteada pelo avô. Aos quinze anos, já tinha vida independente. Como estudante, foi aluna brilhante na Universidade de Maryland, em College Park, sustentando-se com seu trabalho num laboratório do Departamento de Psicologia. Depois da Universidade, mendigou e ganhou a vida como prostituta. Antes do ‘‘Scum’’, escreveu a peça ‘‘Up Your Ass’’ (de tradução impublicável).
Ao final do manifesto, Solanas enumera uma série de instruções para serem colocadas em prática pela militantes de sua causa incluindo desobediência às leis, sabotagem em postos de trabalho, saques (em vez de compras), separação de casais e matança de homens. Ao invadir o estúdio Factory de Andy Warhol, no dia 3 de junho de 1968, levou seu escrito às últimas consequências. Atirou três vezes no artista (acertou a terceira bala) disparando ainda contra o crítico de arte e curador Mario Amaya.
Warhol sobreviveu, enquanto Solanas passou uma temporada numa clínica para doentes mentais e depois numa prisão. Em setembro de 1971, ela foi libertada e no mês seguinte presa novamente por ter enviado cartas ameaçadoras para várias pessoas, inclusive Warhol. Ao longo da década, entrou e saiu diversas vezes de hospitais psiquiátricos. Morreu em abril de 1988, vítima de enfisema e pneumonia num distrito de São Francisco. Tinha 52 anos, era dependente de drogas e continuava a se prostituir.

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