OS HERÓIS DO HIP HOP
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de agosto de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O rap caiu no colo da indústria pop. A exemplo de temporadas anteriores, anuncia-se o estouro do gênero no Brasil, desta vez estimulado pela contratação de vários grupos pelas grandes gravadoras.
Sua ascensão, contudo, é vista com desconfiança pelas cabeças mais arejadas do movimento hip hop. A dupla Thaíde & DJ Hum é uma das que mais insiste na distinção entre rap e hip hop. Seu novo álbum, Assim Caminha a Humanidade, ataca a questão em algumas faixas.
As gravadoras querem vender a idéia de um movimento rap. Logo vão aparecer artistas fabricados, sem qualquer preocupação social. Foi assim nos Estados Unidos, quando apareceram caras como Vanilla Ice disse, por telefone, DJ Hum. O novo disco é o sexto na carreira dos dois.
Traz 17 faixas e uma longa lista de participações especiais incluindo nomes como Marcelo D2, Chico César e Nelson Triunfo. O CD antecipa o lançamento do livro Senhores Tempo Bom, de autoria do jornalista Danilo Monteiro, que conta a trajetória da dupla. O título da biografia é uma alusão ao hit Sr. Tempo Bom, registrado no álbum anterior Preste Atenção.
Thaíde (Altair Gonçalves) e DJ Hum (Humberto Martins de Arruda) constam nos primórdios do hip hop brazuca. Há quase duas décadas, batiam ponto no Largo São Bento, centro de São Paulo, onde se levava o rap da lata (ritmo marcado por latas) para o pessoal dançar break. Mais do que pioneiros, são saudados na periferia como heróis do movimento por manterem a coerência no discurso e na prática.
Arredio em relação à atual corrida das gravadoras atrás de artistas de rap, DJ Hum não se cansa de diferenciar a onda do movimento hip hop, cujos participantes genuínos costumam militar em causas sociais. O rap representa apenas o lado musical do hip hop diz ele. O mais importante é a atitude do artista, seu vínculo com os problemas da periferia, seu envolvimento com a conscientização da molecada.
Segundo ele, os centros comunitários do movimento estão livrando muitos garotos do submundo do crack e da criminalidade. A molecada vai abrindo a cabeça quando começa a ler, a assistir palestras e a participar de oficinas de grafite, discotecagem, break dancing e rap. O garoto passa a ter auto-estima e a conhecer os valores salienta.
As pregações edificantes pipocam ao longo das letras quilométricas do novo CD. O disco chega ao público quatro anos depois de Preste Atenção. A demora é justificada com bem-sucedida, porém lenta recepção do trabalho anterior. As músicas daquele disco foram estourando aos poucos lembra ele.
Quando emplacamos Sr. Tempo Bom, não paramos de fazer shows. A gente nem se deu conta do período que já tinha passado. O disco vende até hoje. O sucesso foi tão grande que a gravadora Eldorado queria renovar nosso contrato. Foi a gravadora Trama, porém, que ofereceu a melhor proposta para a dupla permitindo inclusive quando os dois já trabalhavam as músicas no estúdio um atraso no lançamento do CD.
A parada levou um ano. É que depois de algumas sessões de gravação, eles decidiram recomeçar tudo por estarem insatisfeitos com os resultados. Só agora, o material sai dos fornos impondo respeito. DJ Hum explica que as bases estão mais secas e que 90% por cento dos samples foram extraídos de velhos long-plays de jazz, funk e soul.
Tivemos preocupação com as harmonias e com os backing vocals. A idéia foi fazer a música pulsar tanto quanto as letras diz. O trabalho em cima de timbres se faz notar particularmente em faixas como Anjos da Cara Suja e Ninguém Sabe. Esta última, talvez o grande destaque do disco, traz ruídos de vinil, metais e vocais de apoio de Lino Crizz, Paula Lima e Ieda Hills.
Faça uma rebelião / no cérebro que você tem / aí dentro você é mais de um / Aqui fora seria mais de cem prega um trecho da letra. Entre os temas abordados por Thaíde figura a afirmação da negritude. Em Sou Negro + Pra Você, ele canta: Eu apoio a miscigenação quando o amor é verdadeiro / não como fazem muitos negros brasileiros / ganham dinheiro e logo compram o kit-fama / vem com carro importado, uma corrente de ouro / e uma loira em cima da cama.
No repertório, chama atenção também a mistura de rap e ritmo nordestino na faixa Desafio no Rap Embolada, com participação do cantor e compositor paraibano Chico César e do pioneiro do break dancing Nelson Triunfo. Chico, um estranho no ninho no universo hip hop, comparece como o mediador do duelo de rimas entre Thaíde e Triunfo.
Nós o respeitamos como um autêntico compositor brasileiro que fala de amor em suas canções, mas que também toca em questões sociais. Participamos de um disco dele, o Beleza Mano, e resolvemos retribuir o convite conta. Nelson Triunfo, por sua vez, já havia colaborado com a dupla carimbando sua presença no clipe Sr. Tempo Bom, onde aparece com um cabelão black power.
Ele é um precursor diz o DJ. Na década de 80 foi aos Estados Unidos e trouxe os primeiros discos de hip hop para cá. Além deles, a ficha técnica do CD reúne uma lista extensa de convidados especiais que inclui a Academia Brasileira de Rima, Xis, Dexter, DJ Luciano, Jaqueline, Estado Crítico, Muralha Negra, Newton Carneiro, RZO, Sabotagem, Silveira, Sombra (SNJ), SP Funk e Vander Carneiro. O disco promove o encontro a nova e a velha geração do hip hop.


