O rap caiu no colo da indústria pop. A exemplo de temporadas anteriores, anuncia-se o estouro do gênero no Brasil, desta vez estimulado pela contratação de vários grupos pelas grandes gravadoras.
Sua ascensão, contudo, é vista com desconfiança pelas cabeças mais arejadas do movimento hip hop. A dupla Thaíde & DJ Hum é uma das que mais insiste na distinção entre rap e hip hop. Seu novo álbum, ‘‘Assim Caminha a Humanidade’’, ataca a questão em algumas faixas.
‘‘As gravadoras querem vender a idéia de um movimento rap. Logo vão aparecer artistas fabricados, sem qualquer preocupação social. Foi assim nos Estados Unidos, quando apareceram caras como Vanilla Ice’’ – disse, por telefone, DJ Hum. O novo disco é o sexto na carreira dos dois.
Traz 17 faixas e uma longa lista de participações especiais incluindo nomes como Marcelo D2, Chico César e Nelson Triunfo. O CD antecipa o lançamento do livro ‘‘Senhores Tempo Bom’’, de autoria do jornalista Danilo Monteiro, que conta a trajetória da dupla. O título da biografia é uma alusão ao hit ‘‘Sr. Tempo Bom’’, registrado no álbum anterior ‘‘Preste Atenção’’.
Thaíde (Altair Gonçalves) e DJ Hum (Humberto Martins de Arruda) constam nos primórdios do hip hop brazuca. Há quase duas décadas, batiam ponto no Largo São Bento, centro de São Paulo, onde se levava o ‘‘rap da lata’’ (ritmo marcado por latas) para o pessoal dançar break. Mais do que pioneiros, são saudados na periferia como heróis do movimento por manterem a coerência no discurso e na prática.
Arredio em relação à atual corrida das gravadoras atrás de artistas de rap, DJ Hum não se cansa de diferenciar a onda do movimento hip hop, cujos participantes genuínos costumam militar em causas sociais. ‘‘O rap representa apenas o lado musical do hip hop’’ – diz ele. ‘‘O mais importante é a atitude do artista, seu vínculo com os problemas da periferia, seu envolvimento com a conscientização da molecada’’.
Segundo ele, os centros comunitários do movimento estão livrando muitos garotos do submundo do crack e da criminalidade. ‘‘A molecada vai abrindo a cabeça quando começa a ler, a assistir palestras e a participar de oficinas de grafite, discotecagem, break dancing e rap. O garoto passa a ter auto-estima e a conhecer os valores’’ – salienta.
As pregações edificantes pipocam ao longo das letras quilométricas do novo CD. O disco chega ao público quatro anos depois de ‘‘Preste Atenção’’. A demora é justificada com bem-sucedida, porém lenta recepção do trabalho anterior. ‘‘As músicas daquele disco foram estourando aos poucos’’ – lembra ele.
‘‘Quando emplacamos ‘Sr. Tempo Bom’, não paramos de fazer shows. A gente nem se deu conta do período que já tinha passado. O disco vende até hoje. O sucesso foi tão grande que a gravadora Eldorado queria renovar nosso contrato’’. Foi a gravadora Trama, porém, que ofereceu a melhor proposta para a dupla permitindo inclusive – quando os dois já trabalhavam as músicas no estúdio – um atraso no lançamento do CD.
A parada levou um ano. É que depois de algumas sessões de gravação, eles decidiram recomeçar tudo por estarem insatisfeitos com os resultados. Só agora, o material sai dos fornos impondo respeito. DJ Hum explica que as bases estão mais secas e que 90% por cento dos samples foram extraídos de velhos long-plays de jazz, funk e soul.
‘‘Tivemos preocupação com as harmonias e com os backing vocals. A idéia foi fazer a música pulsar tanto quanto as letras’’ – diz. O trabalho em cima de timbres se faz notar particularmente em faixas como ‘‘Anjos da Cara Suja’’ e ‘‘Ninguém Sabe’’. Esta última, talvez o grande destaque do disco, traz ruídos de vinil, metais e vocais de apoio de Lino Crizz, Paula Lima e Ieda Hills.
‘‘Faça uma rebelião / no cérebro que você tem / aí dentro você é mais de um / Aqui fora seria mais de cem’’ – prega um trecho da letra. Entre os temas abordados por Thaíde figura a afirmação da negritude. Em ‘‘Sou Negro + Pra Voc꒒, ele canta: ‘‘Eu apoio a miscigenação quando o amor é verdadeiro / não como fazem muitos negros brasileiros / ganham dinheiro e logo compram o kit-fama / vem com carro importado, uma corrente de ouro / e uma loira em cima da cama’’.
No repertório, chama atenção também a mistura de rap e ritmo nordestino na faixa ‘‘Desafio no Rap Embolada’’, com participação do cantor e compositor paraibano Chico César e do pioneiro do break dancing Nelson Triunfo. Chico, um estranho no ninho no universo hip hop, comparece como o mediador do duelo de rimas entre Thaíde e Triunfo.
‘‘Nós o respeitamos como um autêntico compositor brasileiro que fala de amor em suas canções, mas que também toca em questões sociais. Participamos de um disco dele, o ‘‘Beleza Mano’’, e resolvemos retribuir o convite’’ – conta. Nelson Triunfo, por sua vez, já havia colaborado com a dupla carimbando sua presença no clipe ‘‘Sr. Tempo Bom’’, onde aparece com um cabelão black power.
‘‘Ele é um precursor’’ – diz o DJ. ‘‘Na década de 80 foi aos Estados Unidos e trouxe os primeiros discos de hip hop para cᒒ. Além deles, a ficha técnica do CD reúne uma lista extensa de convidados especiais que inclui a Academia Brasileira de Rima, Xis, Dexter, DJ Luciano, Jaqueline, Estado Crítico, Muralha Negra, Newton Carneiro, RZO, Sabotagem, Silveira, Sombra (SNJ), SP Funk e Vander Carneiro. O disco promove o encontro a nova e a velha geração do hip hop.

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