Apesar da surpreendente bilheteria no mercado americano, parece que o distribuidor brasileiro não acreditou muito no poder de fogo comercial de ''Casamento Grego'', promovendo repetidas pré-estréias nos últimos finais de semana para reforçar o boca-a-boca sobre um filme sem os habituais apelos mediáticos - mega produção, elenco de rostos conhecidos, argumento polêmico seja pela gratuidade da violência, sexo, drogas e rock and roll, em separado ou tudo junto. ''Casamento Grego'', a partir de hoje em lançamento no Brasil, não oferece nenhum desses componentes que tornaram desagradável uma visita ao cinema. O filme custou míseros 5 milhões de dólares, a atriz principal é desconhecida como quase todo o elenco e tem apenas relativo glamour, a trama não oferece reviravoltas de folhetim e o final é assumidamente feliz. Muito longe do olimpo das obras-primas - e aqui o olimpo é referência quase literal -, ''My Big Fat Greek Wedding'' é uma pequena crônica romântica, sentimental e agradável, um desses cada vez mais raros produtos que oferecem bem mais do que custaram. Mais até do que se poderia esperar.
A heroína, Toula Portokalos (Nia Vardalos, também roteirista) vive em Chicago rodeada por uma enorme, barulhenta e sectária família grega. Chegou aos 30 solteira, e a idade e a circunstância, hoje fatores de alívio para o neoliberalismo feminista, por outro lado representam maldição e peso para as tradições helênicas. Tradições, aliás, rigorosamente radicais. Além disso, Toula não foi muito agraciada pelo mitológico charme dos deuses, e sua primeira entrada em cena é no mínimo desconcertante, se não assustadora. O que definitivamente a deixa na condição de causa perdida para a família. Mas a moça reage, vai à luta, passa pelo sempre previsível processo de Cinderela, recicla a aparência e começa a namorar um ''xeno'' professor e bonitão, Ian Miller (John Corbett, da série televisiva ''Sexo e a Cidade'', um mix de Steven Seagal e William Hurt), para desespero do patriarca Portokalos (Michael Constantine), entre outras ''greguices'' um especialista em helenizar qualquer palavra do dia a dia.
A trama parte de um espetáculo-solo em boa parte autobiográfico, escrito e interpretado com grande êxito por Nia Vardalos em palcos off-Broadway. Quem estava um dia na platéia era o casal Tom Hanks-Rita Wilson, que decidiu bancar a adaptação para o cinema. A autora aceitou o desafio com a condição de que escreveria o roteiro e interpretaria o papel principal. O resultado foi este filme, simpático sempre e com frequência engraçado, que mergulha, com poesia e hilaridade, num universo étnico frequentado por estereótipos e clichês - a casa inspirada em palácio da antiguidade grega, a balbúrdia familiar, o desmesurado apreço do patriarca pela língua, as ocupações preferidas pelos gregos: restaurantes e agências de viagem...
Como é um filme mais de textos e de interpretações, louve-se a atitude do diretor Joel Zwick em manter-se discretamente à margem. Com muitos elementos jogando a favor, vale aqui a máxima ''muito faz quem não atrapalha''. Hábil manipuladora da comédia, Nia Vardalos é o dínamo deste ''Casamento Grego'', transmitindo sinceridade em qualquer situação, mais ou menos cômicas, que envolvam as atribulações de uma mulher que deseja romper com indestrutíveis laços familiares em favor da felicidade pessoal. Sem que isso implique em ruptura irremediável: ao final, vitória dos dois lados, mas com concessões.

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