Os gênios da fuzarca
ReproduçãoSérgio Cabral, Manolo, um dos donos do bar Antonios, e Carlinhos de Oliveira
Os gênios da fuzarca
Carlinhos Oliveira tem uma história muito engraçada em sua vida. Em um assalto ao bar Florentino, com todos trancados no banheiro pelos assaltantes, ele coloca a cabeça para fora e grita: Seo ladrão! Rasga as notas assinadas que estão no caixa! Os penduras. Rasga os penduras!
É um dos casos pitorescos daqueles tempos, muitos inventados ou aumentados de boca em boca. Esse, por exemplo, é mentira. O assalto realmente aconteceu, Carlinhos foi trancado no banheiro com outros fregueses. Mas não fez essa observação jocosa ao ladrão. Seria uma provocação perigosa.
Essa lenda, porém, não faz falta à vida de José Carlos Oliveira - sem o de Oliveira, que ele detestava. Ele aprontou bastante. Era tão bagunceiro que chegou a ser expulso do bar Antonios - templo da fuzarca da Zona Sul carioca. Tornou-se persona non grata e só voltou a frequentá-lo depois de um ato de protesto coletivo: ele e um companheiro de copo sentaram-se na porta do bar até que o deixaram voltar.
Carlinhos começou cedo, já em Vitória, a entornar o copo. No Rio de Janeiro fez todo o percurso da história dos bares cariocas, da década de 50, no centro, para os bairros da Zona Sul em 60. Primeiro Copacabana, depois Ipanema e Leblon. Era nos bares onde acontecia tudo. Todos andavam por ali: Chico Buarque, Di Cavalcanti, Vinícius, Rubem Braga, Armando Nogueira, Mauro Salles, Marcos Vasconcelos, o pessoal do Pasquim, Leila Diniz, Nelson Motta, Tom Jobim, Antonio Torres, Paulo Francis.
ReproduçãoTom Jobim, Carlinhos de Oliveira e Zevi Ghivelder na noite cariocaTempos agitados aqueles. Roni Porrada era baixinho, briguento, faixa preta de judô e felizmente adorava Carlinhos; o jornalista Tarso de Castro aprontava tanto que, junto com Carlinhos Oliveira e Roniquito, era o terror do Antonios.
Roniquito, no registro civil Ronald Russel Wallace de Chevalier, era o mais terrível. Magro, fraco e abusado: habilidade verbal fantástica e muito culto. Adversário temível em qualquer polêmica verbal. Era contratado de Walter Clark, um dos criadores da TV Globo. Desse emprego inventou o vocábulo aspone. Quando lhe perguntavam o que fazia lá, ele dizia: Sou aspone! Assessor de porra nenhuma!
Algumas provocações de Carlinhos terminavam em briga. Uma vez ele e o poeta Paulo Mendes Campos, também de físico mirrado, foram para as ditas vias de fato. Xingaram um ao outro e, cambaleantes, armaram os punhos. Carlinhos dizia: Não vem que eu brigo, não vem que eu brigo. Não é preciso dizer que a briga terminou com um tilintar de copos. Noutra ocasião quando o jornalista Tarso de Castro perdeu a paciência com Roniquito, partiu para a defesa do amigo: No Roniquito só quem pode bater é o Walter Clark que é o dono dele!
Outra figura folclórica era Hugo Bidet. O apelido surgiu depois que Hugo Leon de Castro resolveu usar o bidê para colocar de molho as carnes de uma feijoada de inauguração de seu apartamento novinho em folha. Andava pelos bares sempre acompanhado de um ratinho branco - presente de Ivan Lessa - que ele batizara de Sigmund Freud, o Sig. O rato comia pão embebido em vodca ou rum e anos depois ficou famoso no traço do cartunista Jaguar como o ratinho Sig do semanário O Pasquim.
Numa época Carlinhos Oliveira praticamente morava no Antonios. Almoçava por lá, passava a tarde conversando e bebendo e escrevia a crônica ali mesmo, numa máquina que mantinha guardada no bar. Alguém levava a crônica até o jornal e ele ficava bebendo com os amigos de copo que chegavam com a noite. Este hábito de escrever em bares ele levou para Paris, onde passou algumas temporadas. Lá também colocou sua máquina de escrever em cima de uma mesa. Os garçons do La Coupole estavam acostumados com gente escrevendo no café, uma tradição em Paris. No início do século o escritor americano Hemingway fazia isso naquele mesmo lugar. Mas nunca alguém havia usado uma máquina de escrever. Ficaram encantados com le petit bresilien.(Jota)





