Os fios da identidade afro

No livro “O Black Power de Akin”, a escritora Kiusam de Oliveira aborda a estética dos penteados afro para falar da importância da identidade negra no combate ao preconceito racial

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

 O black power transcendeu padrões estéticos e se tornou o maior símbolo do movimento de luta pelos direitos civis das comunidades afro-descendentes nos anos 1960. A reafirmação do cabelo crespo como instrumento do ativismo político contra o preconceito racial voltou a ser tendência na última década.

 O penteado voltou ganhar força ainda maior neste ano após a criação do manifesto “Vidas Negras Importam”, que reacendeu as discussões sobre o tema no mundo todo após George Floyd morrer asfixiado por um policial branco nos Estados Unidos no mês de maio.  



Os fios da identidade afro
 

 

O penteado black power surgiu nos anos 20, época em que Marcus Garvey,  precursor do ativismo negro na Jamaica,  lutava para promover o encontro dos negros com suas raízes africanas na tentativa de romper com os padrões de beleza vigentes naquele período. O culto ao crespo ganhou nos Estados Unidos quatro décadas depois, quando a partir de 1960 a comunidade negra deixou de alisar o cabelo e passou a exibi-los armados e naturais, causando espanto e resistência da sociedade branca. 

 

“Assumir as raízes africanas é uma maneira de salvar a identidade negra consciente, íntegra e saudável para combater o preconceito social da branquitude”, afirma a escritora Kiusam de Oliveira, que tem doutorado em educação. Na avaliação dela, a adesão ao penteado black power supera modismos. “Os enfrentamentos étnico-raciais aumentaram em tempos de pandemia e quarentena, assim como a compreensão de que corpo negro é um corpo político. Assumir o cabelo crespo significa consciência social e política da necessidade de muita luta para a superação do racismo, pela valorização do continente africano e pelo reconhecimento de África como o Berço da Humanidade. ", destaca. 

 

A estética do penteado afro é abordada por Kiusam em suas obras literárias. “Atuo em prol de crianças que merecem vidas dignas. Assim, tenho ajudado a reconstruir a autoestima de crianças, jovens e adultos negros”, afirma. Em seu mais recente livro, “O black power de Kin”, que acaba de ser lançado, a escritora narra a história de Akin, um jovem negro de 12 anos, que por vergonha de seu cabelo crespo cobre a cabeça com um boné ao ir para a escola. O personagem conta com a ajuda de seu sábio avô, que com a força das histórias da ancestralidade leva o neto a recuperar a autoestima. Agora confiante, o personagem ergue seu cabelo black power e se sente um príncipe.  

“As famílias podem e devem contribuir para que as crianças negras consigam ver graça e beleza em seus cabelos crespos.  Nesse sentido, as literaturas “Negro-Brasileira” (Cuti, 2010) e “Negro-Brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil” (Kiusam de Oliveira, 2020) podem ajudar uma criança negra a cuidar e a amar seu próprio corpo, inclusive os cabelos. Um provérbio africano afirma que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Profundas demais tais palavras”, conclui.  



Crespice ameaçadora 

Associados à falta de higiene e de cuidados, má aparência, desalinho, rebeldia e marginalização, os cabelos crespos muitas vezes são definidos por  expressões carregadas de preconceito e agressividade, como “cabelo ruim”; “negra do cabelo duro”; “cabelo de bombril”. Na avaliação da escritora e doutora em educação Kiusam de Oliveira, isso acontece devido à ameaça que as madeixas afro provocam.  

“A violência imposta por brancos coloca os cabelos crespos como o grande inimigo da branquitude, pois apesar de todas as violências sofridas, continuam a se erguer majestosos sobre as cabeças negras e a brilhar como coroas que o sistema opressor da branquitude insiste em arrancar de nossas cabeças”.  

 

Divas empoderadas 


O coletivo Black Divas, de Londrina, prepara a 5ª Marcha do Cabelo Crespo para outubro, se persistir a pandemia o evento será on-line
O coletivo Black Divas, de Londrina, prepara a 5ª Marcha do Cabelo Crespo para outubro, se persistir a pandemia o evento será on-line | Divulgação
 


Há 25 anos, o coletivo londrinense Black Divas luta pelo empoderamento da mulher negra londrinense. “Atualmente contamos com 276 inscritas, incluindo profissionais de vários segmentos, como advogadas, psicólogas, esteticistas, nutricionistas, entre outras”, informa Sandra Aguillera, coordenadora do grupo. 

Entre as ações do coletivo está a valorização do cabelo afro. “Há algumas décadas, a maioria de nós usava pranchinha ou alisava o cabelo. Mas de dez anos pra cá essa realidade está mudando. Muitas mulheres negras da cidade passaram a usar o cabelo black power. Essa mudança de conceito enfatiza o orgulho da nossa raça e valoriza a estética do pertencimento”, destaca Sandra. 

Ela avalia que graças ao empoderamento, as mulheres negras conquistaram grandes avanços. “Ainda temos muito pelo que lutar. Mas já é possível perceber uma grande abertura neste sentido, até mesmo no meio publicitário. Esta nova geração de meninas negras está chegando com tudo e assumindo suas raízes com orgulho. Temos cinco misses de cidades vizinhas no coletivo e todas elas usam cabelo black power. É uma grande conquista”, enfatiza. 

Modelo negra pioneira na cidade, Edmara Alves lembra que contou com a ajuda da mãe para reconquistar sua autoestima. “Teve uma época que eu nem queria ir pra escola por conta dos xingamentos que ouvia. Mas minha mãe sempre me motivou a valorizar nossa raça. Já tive cabelo curto, comprido, raspado e até azul. Porém sempre soube me impor e me fazer ser respeitada. Acho lindo o black power e incentivo as minhas alunas do curso de modelo a usar seus cabelos da forma mais natural possível”, afirma. 

 

Marcha do Orgulho Crespo 

Os fios da identidade afro
Divulgação
 




Um dos eventos promovidos pelo coletivo Black Divas em Londrina é a Marcha do Orgulho Crespo, que neste ano chega à sua 5ª edição. “Normalmente a gente reúne centenas de mulheres negras nas ruas. Mas neste ano devido à pandemia, a marcha acontecerá somente on-line, num encontro que será realizado em outubro”, diz Sandra Aguillera ao informar que antes disso, o coletivo promove um Congresso de Trancistas, agendado virtualmente para os dias 5 e 6 de março.  

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo