Orelhas grandes, um nariz quebrado e poucos músculos não são mais obstáculos para uma carreira de modelo bem-sucedida.
Publicitários e suas agências estão cada vez mais à procura de pessoas com aparência fora do comum e que se destaquem no meio de uma multidão ou que sejam tão ordinários que possam se misturar e dar um ar de normalidade a uma campanha publicitária.
‘‘Nós temos visto um enorme crescimento na demanda nos últimos dois anos por garotos ou garotas com uma aparência cotidiana, assim como por pessoas que não tenham uma beleza convencional’’, diz Mark French, diretor da Ugly Models (Modelos Feios), uma agência de modelos com sede em Londres.
‘‘Existe uma fuga do esteriótipo de beleza que costumava aparecer em cada comercial porque as agências de publicidade estão ousando cada vez mais.’’ French, que fundou sua agência 30 anos atrás, diz que pode fornecer modelos para quase todos os pedidos: ‘‘Nós temos modelos de todos os tipos, altos, magros, baixos, gordos, com piercing, tatuados’’.
Malcolm Rasala, que dirige a Real People Worldwide, disse que o interesse crescente das agências de propaganda por modelos não-bonitos segue uma tendência que começou na indústria da moda. ‘‘Nos anos 80 existia uma demanda real por pessoas extremamente bonitas, mas como acontece geralmente no mundo da moda, as pessoas se cansam e partem para outra’’, defende. ‘‘Agora a indústria da moda usa garotas com aparência bizarra nas passarelas. As propagandas seguiram essa tendência.’’
Para Katrina Michel, gerente de planejamento da agência Ogilvy & Mather, de Londres, assim como uma escolha inteligente de modelos pode destacar um produto, também ajuda o anunciante a atingir seu mercado-alvo de modo mais eficiente. ‘‘Eu acho que há um novo senso de realismo nas propagandas e as pessoas que são mostradas fazendo compras em supermercados não parecem supermodelos, e sim pessoas simples’’, disse Michel.
A tendência se estendeu para o mundo da moda e dos cosméticos - tradicionalmente palco de modelos bonitos. Michel cita o creme hidratante Oil of Ulay e uma loja de roupas inglesa chamada Evans, que trabalha para mulheres gordas. ‘‘Oil of Ulay está usando mulheres mais velhas em suas propagandas nos Estados Unidos’’, ela disse.
‘‘E no Reino Unido, a loja Evans usa mulheres de verdade em suas propagandas e materiais para divulgar liquidações. Estas mulheres são bonitas mas também têm o peso acima do normal. Os consumidores não querem ver garotas magras usando roupas para mulheres gordas’’, explica.
A agência de propaganda inglesa HHCL & Partners disse ter descoberto que modelos fora do comum fazem uma campanha diferente em um mercado saturado.
‘‘Nós usamos um homem muito grande e gordo, todo pintado de laranja, para nossa primeira campanha da bebida Tango’’, disse um porta-voz da HHCL.
French, da Ugly Models, afirma que pode oferecer modelos com idades desde 16 até 82 anos. ‘‘Nós também temos muitos tipos como aposentados do exército, com aqueles grandes bigodes, assim como pequenas mulheres idosas’’, acrescenta.
French afirma que a demanda por aparências diferentes é cíclica.
‘‘Em um minuto eles querem os homens com aspecto de bobos, no outro são os musculosos. Eu acho que isso acontece porque uma agência de propaganda vê que outra usou um modelo diferente, e então pensa ‘Isso é o que nós precisamos.’’’
A Ugly Models encontra novos talentos fazendo audiências em massa todos os anos. Isso costuma atrair tanto novos atores e atrizes, como aqueles que apenas querem ganhar um dinheiro extra.
Andy Cook, um comediante que virou modelo, diz que foi sua aparência ordinária que lhe rendeu várias ofertas de propagandas. ‘‘Eu estou ficando careca, tenho um rosto enrugado e olhos saltados, mas ganhei muitos trabalhos porque pareço com alguém que você encontra em um pub ou em uma loja de conveniências’’, disse Cook. ‘‘O Tom Cruise não aparece em lojas de conveniências e as agências de propaganda me disseram que querem pessoas que pareçam reais.’’
Arthur Young disse que sua conduta militar distinta e seu bigode engomado o tornaram popular entre os publicitários e os produtores de filmes. ‘‘Eu estou nos meus 70 anos e já fui fotografado várias vezes para propagandas, além de também ter aparecido em alguns filmes’’, ele disse.
Rupert Sutton, diretor de criação da agência inglesa RPM3, disse que o uso de pessoas com aparência normal é importante para alcançar consumidores que se tornaram cínicos em relação às propagandas. ‘‘Eles podem ver além das pessoas bonitas e sorridentes que aparecem nas propagandas’’, disse.Arquivo FolhaNem sempre uma carinha de Tom Cruise e um corpo de Stallone vendem maisHelen Jones
Reuters

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