''Todo o artista tem de ir onde o povo está'', cantava Milton Nascimento. Mas se for depender do público de grandes festivais de rock no Brasil, a máxima de Milton se inverte. Poucos minutos na fila de shows internacionais, como o da banda inglesa Radiohead, que se apresentou no Rio e em São Paulo no último fim de semana, são suficientes para encontrar quem tenha andado um bocado atrás da banda do coração.
O paulistano Robson Bala, de 40 anos, é um exemplo. A viagem ao Rio para ver o quinteto britânico é uma das mais curtas que fez: ''Já fui pra Espanha, Argentina, Portugal, Holanda, China. E vi também um show do Racionais no Japão''. Robson não sabe dizer quanto gastou nas viagens, mas não se arrepende de um centavo.
O Radiohead tatuado em cima do peito de Nicole já indicava algum grau de adoração pela banda britânica. Mas depois de dois minutos de conversa, estava certo: a americana Nicole Francisco não poupa esforço, dinheiro e quilômetros rodados para ver o quinteto no palco. Ela já foi a mais de 14 shows desta turnê In Rainbowns. Acompanhou dez apresentações da turnê norte-americana, largou o emprego, voou para o México e depois para o Brasil. Esperando na fila para a apresentação no Rio de Janeiro, Nicole não esconde o entusiasmo ao falar da banda: ''Eles são minha coisa preferida no mundo todo. Devo ter gastado uns 2 mil dólares na turnê nos EUA. Para chegar até aqui gastei o dobro. Mas vale a pena''.
Ao contrário do que acontece em países como os Estados Unidos, onde as bandas fazem turnês longas, passando por diversos estados - só nesta turnê do Radiohead foram 21 shows -, no Brasil, dificilmente as apresentações ultrapassam o eixo Rio-São Paulo. O estudante de medicina Rodrigo Sanford, de 23 anos, reclama: ''Para quem mora no Norte, Nordeste do País, é muito difícil vir ver um show por aqui''. Rodrigo voou de Fortaleza ao Rio em um avião de carga. ''Não tinha dinheiro para pagar a passagem, conversei com uma tia minha que trabalha em uma companhia aérea e aí eu vim, no meio das cargas mesmo, para poder chegar ao show'', justifica.
Não é difícil encontrar histórias como a de Rodrigo. Tem gente que vende roupas, móveis e aparelhos eletrônicos para custear passagem e ingresso. Gente que sai de Belém, Fortaleza, Rio Grande do Sul, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Maringá e Londrina em busca de um bom show.
Os produtores de grandes festivais já se deram conta do alto número de frequentadores de outros Estados. Tanto que para o Festival Just a Fest - que trouxe Radiohead e Kraftwerk para o Brasil, e que reuniu os cariocas do Los Hermanos depois de quase dois anos de recesso, as produtoras disponibilizaram os ingressos na internet, que depois foram endereçados para diversos cantos do País e do mundo. Além disso, os Festivais são anunciados com certo tempo de antecedência, permitindo que os fãs tenham tempo para se organizar.
O músico londrinense Pedro Potumati resolveu unir o útil ao agradável e organizar uma van para show do Radiohead em São Paulo. Uma opção prática, barata (cada passageiro pagou 130 reais, um pouco mais que a metade de uma passagem de ônibus) e muito comum. As vagas se esgotaram em poucos dias. Entre os passageiros, está o psicólogo Bruno Tazima, de 23 anos. Acostumado com a distância entre os palcos dos grandes festivais e as terras vermelhas, Bruno contabiliza mais de dez apresentações de bandas gringas em seu currículo, entre eles, Iggy Pop, Bjork e The Killers.
José Senedesi também viajou de Londrina a São Paulo só para o show. Não foi a primeira vez. O advogado leva no currículo apresentações do Pixies, Manu Chau e Bob Dylan, seu preferido até então. Para José, é sempre bom ver bandas que fujam do roteiro nacional. ''Não que aqui não tenha coisa boa ou diferente, é que esses caras influenciam, seja para criar ou só para gostar mesmo'', explica.
Além disso, existe o medo de as bandas queridas nunca mais pisarem no Brasil. Aqui, é difícil encontrar outra banda com a popularidade do Iron Maiden, que se apresenta regularmente no País. ''Estas bandas estrangeiras, com raras exceções, nunca vêm ao Brasil. Foi a primeira vez do Radiohead aqui. Não dá para perder'', atesta o psicólogo Lucas Campos, 25 anos, também de Londrina. E completa: ''Ver um show é a materialização dos sons, dos ritmos, das poesias das letras bem ali, naquelas duas horas de espetáculo.'' Duas horas que valem os quilômetros rodados para chegar até ali.

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