O CINÉFILO FIEL -

Os fantasmas de Kubrick, intangíveis

'Doutor Sono' se afasta da genialidade de 'O Iluminado' para o qual remete sem acertar o alvo

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Carlos Eduardo Lourenço Jorge

Em minha reduzida cabeceira cinéfila, há títulos que preenchem espaço privilegiado na história do melhor do cinema mundial que criei para mim. “O Iluminado” (Stanley Kubrick) é um deles. E se criados mudos falassem, o meu diria que, na estante literária, não há lugar para Stephen King. Há quem goste, e muito, e pontos de vista divergentes fazem também a glória da democracia literária: o meu fantástico de todos os momentos é Ray Bradbury, que soube fazer crítica social e poesia percorrendo os insondáveis caminhos da FC, do desconhecido, do mágico, do assombro, do maravilhoso. Em 1980, Kubrick abriu seu “Iluminado” majestoso e magistral com uma sequência de forma e conteúdo irretocáveis: um plano aéreo seguia o traçado de uma rodovia pelas montanhas do Colorado, ritmado pelas notas sombrias e premonitórias de “Dies Irae”, um dos movimentos da Sinfonia Fantástica, de Berlioz.


Nessa trajetória pela rodovia cheia de curvas, acompanhando o carro do trio de protagonistas (a família Torrance), o diretor deixou claro que ele faria exatamente o que fez: se afastou da linha reta (o romance de King, de 1977) e optou pelas "curvas" para amoldar o texto e dar a este uma “possessão” diferente porque pessoal.




Neste “Doutor Sono”, o diretor Mike Flanagan abra a narrativa com um plano também a partir do espaço aéreo, mas desta vez fixo: a câmera é projetada reta em mergulho vertical, e termina em uma vítima colateral daquele enredo de quase quatro décadas atrás. Neste momento, Flanagan está anunciando ao público que não vai se afastar do livro-sequela de King (2013), que será inteiramente fiel, tão fiel quanto o cineasta de “Barry Lyndon” (outro filme de Kubrick sobre as vicissitudes do tempo, da culpa e do destino) não foi em “The Shining”. Para horror de King, que definitivamente não sabia que estava lidando com um dos maiores gênios do século 20, um dos mais pessoais, inventivos e completos no panorama tão rarefeito da criação artística contemporânea.


Mais ou menos três quartos das duas horas e trinta e um minutos (!) de projeção são utilizados em “Doutor Sono” para abandonar um estilo narrativo que, por querer estender tempos, espaços, personagens e circunstâncias em questão de minutos, se torna entrecortado, disperso, confuso e prematuramente cansativo. Quando afinal define suas coordenadas de tempo (o aqui e agora), espaço (um local ali pelo centro dos EUA) e ação (a luta entre superdotados psíquicos), “Doutor Sono” se aclara até em demasia (mas não se ilumina...), se concentra e o resultado se põe nos trilhos com alguma eficácia para aquele tipo de espectador que está sempre à procura de respostas objetivas para o sobrenatural (sic). E então chegam hora e vez de abrir as comportas e materializar a fantasmagoria mais profunda que sempre esteve pelos cantos e frestas do Hotel Overlook, aquela mesma que Kubrick tão bem soube preservar na mente progressivamente insana e possuída de Jack Torrance. Aqueles piores fantasmas, os mais profundos, enraizados e viscerais.


Um dia antes de conhecer “Dr. Sono”, me dei mais uma vez o prazer de rever “O Iluminado”, esta obra-prima da imaginação exuberante de um arquiteto de formas, deste perfeccionista que sabia como ninguém organizar imagens no inconsciente do público. O filme de Flanagan, apoiado nas criaturas vampirescas do romance de King e no rescaldo que o escritor fez de “The Shining”, criou uma trama que tem muito de empáfia e quase nada de sutileza, rala magia ou atmosfera de horror genuíno.


O poderio visual de Kubrick, sua capacidade de fundir sons (trilha musical) e rebuscar imagens (no melhor sentido), aquele arrepiante e assombroso estranhamento que preservava “O Iluminado” em estado de permanente pesadelo: nada disso passa pela confecção de “Doutor Sonho”. Nem mesmo quando são ressuscitados cenários ou personagens do Overlook tomados por empréstimo do cult de 1980 a coisa funciona.


É apenas um filme de terror, medíocre, travestido de sequela com aura de respeitabilidade tomada por apropriação indébita, uma espécie de teimosa vingança tardia de King, que jamais se conformou com as liberdades tomadas por Kubrick – o grande “crime” na adaptação, para quem não sabe (e o magoado escritor nunca fez segredo), foi Kubrick ter congelado e morto o Jack Torrance de Jack Nicholson. O fim do personagem, como queria King, foi literariamente o mesmo de seu filho Dan nesta sua volta ao Overlook, na explosão da caldeira do hotel que é em seguida consumido pelo fogo.


Mais informações com o psiquiatra e/o analista de King, cuja vida pessoal escancarada pela fama é mais ou menos reveladora de uma sucessão de traumas que se espalham em centenas de personagens ao longo de mais de 60 histórias, a maioria delas adaptadas para o cinema.


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