O quanto de poesia alemã se conhece no Brasil? E desse legado, o que chegou da corrente expressionista às nossas estantes? À exceção de Georg Trakl, algum outro autor é familiar ao leitor? Gottfried Benn, talvez? Ou quem sabe Georg Heym?
Bem, tanto iniciados quanto neófitos já podem comemorar. A editora Estação Liberdade coloca esta semana nas livrarias o volume ‘‘Poesia Expressionista Alem㠖 Uma Antologia’’, com organização e tradução de Claudia Cavalcanti. O livro será lançado hoje no Instituto Goethe, em São Paulo, num recital em que a cantora Suzanna Salles vai ler alguns poemas do volume, além de interpretar composições de Alban Berg acompanhada pelo pianista Lincoln Antonio.
A antologia reúne a produção de dezesseis poetas pinçando versos do apogeu do movimento (entre 1910 e 1918). Johannes R. Becher, Gottfried Benn, Albert Ehrenstein, Iwan Goll, Walter Hasenclever, Georg Heym, Jakob van Hoddis, Wilhelm Klemm, Else Lasker-Schuler, Alfred Lichtenstein, Ludwig Rubiner, René Schickele, Ernst Stadler, August Stramm, Franz Wefel e, claro, Georg Trakl revelam os traços díspares de uma geração traumatizada pela Primeira Guerra Mundial.
O elenco é representativo, mas incompleto. ‘‘Se deixei de incluir algum nome importante àquela época, foi porque não me senti capaz de transpor para o português os seus versos, achando que eles perderiam o seu poder poético, ou porque uma ou outra obra, significativa naquele tempo, hoje me parece datada’’ – explica Cláudia Cavalcanti no texto introdutório.
O livro, em edição bilíngue (alemão/português) é ilustrado com gravuras de George Grosz, Max Beckmann, Lyonel Feininger, Ernst Ludwig Kirchner, Max Pechstein, Karl Schmidt-Rotluff, Lasar Segalll, entre outros. O lançamento coincide com a série de eventos dedicados ao expressionismo, que ocupou o Paço Imperial do Rio de Janeiro nos dois últimos meses e que vai se instalar no Museu de Arte Moderna e no Museu Lasar Segall em São Paulo no próximo dia 10.
Talvez mais conhecido pela repercussão de filmes de diretores como Fritz Lang e Murnau, o expressionismo foi gestado nos primeiros anos do século, manifestando-se primeiramente nas artes plásticas e gráficas. Foi um dos movimentos da vanguarda modernista européia e, como todos eles, pautava-se por declarações de princípio dividindo-se entre diversos grupos, tendências e facções.
As revistas proliferavam. Pregações revolucionárias ditavam as reuniões. Manifestos atacavam a ordem burguesa, a ponto de se falar em ‘‘manifestantismo’’ e de se considerá-los praticamente um dos gêneros literários da época. O arco de influências que nutria os artistas abrangia Nietzsche, Bakunin, Lênin, Martin Buber e Gustav Landauer. Ao lado do voluntarismo utópico, a vida boêmia também aglutinava os jovens expressionistas.
A diversidade de estilos predominava entre os poetas. O que os unia era a liberdade de criação e a postura rebelde diante de um modelo social com o qual não concordavam. Ao traçar as linhas gerais do movimento, Claudia Cavalcanti destaca o ‘‘simultaneísmo’’, um estilo em que cada verso contém uma afirmação independente da anterior ou da posterior.
Um exemplo é este fragmento com os versos finais do poema ‘‘Fim de Mundo’’, de Jakob van Hoddis, incluído na antologia: ‘‘A tempestade chegou, saltam à terra / Mares selvagens que esmagam largos diques / A maioria das pessoas tem coriza / Os trens precipitam-se das pontes’’.
Entre os temas mais explorados consta o da figura do louco. Não por acaso, muitos autores sucumbiram ao desvario. Else Lasker-Schuler, a musa dos expressionistas, foi vítima de sucessivas crises de depressão. Lia seus poemas em troca de um prato de comida ou de uns trocados para dormir em alguma hospedaria. Movida por paixões, abordava nos versos o amor e os sofrimentos dele decorrente.
Else sobreviveu à 2ª grande guerra, uma sorte negada à maioria dos poetas expressionistas. ‘‘A guerra’’ – lembra Claudia, referindo-se ao primeiro conflito mundial – ‘‘parece ter sido a experiência mais forte já vivenciada por aquela geração de jovens que protestava contra os valores morais da família, lutava para manter-se à margem da sociedade que repudiava, escrevia como forma de expiação e muitas vezes se drogava para escrever’’.
Georg Trakl, por ser farmacêutico, foi convocado para servir no campo de batalha. Cuidou de dezenas de feridos. Pouco antes de morrer de overdose de cocaína, o poeta transformou a mais terrível experiência de sua vida em metáforas inteiramente impessoais e, ao mesmo tempo, no poema mais completo já feito por um expressionista sob a sombra da primeira Guerra.
‘‘Oh, tão orgulhoso luto! Altares de bronze! / Hoje uma dor violenta alimenta a chama ardente do espírito:/ Os netos que ainda não nasceram’’ – diz os versos finais de ‘‘Grodek’’, seu último poema. ‘‘Grodek’’ ficou de fora da antologia. Mas o que foi garimpado de Trakl, como dos demais poetas elencados, é de arrancar exclamações de qualquer amante da grande poesia.
•‘‘Poesia Expressionista Alem㒒. Editora Estação Liberdade. Tel. (11) 3661-2881. Fax: (11) 3825-4239. e-mail: [email protected].

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