Gore Vidal é um ícone da literatura norte-americana. Sua incursão pelo romance histórico o levou a construir um painel de sete livros que enfocam os principais momentos da história do país. Em ‘‘A Era Dourada’’, última obra desse ciclo, ele funde fatos históricos com personagens ficcionais, colocando-se como personagem e aparecendo como protagonista do último capítulo, intitulado ‘‘No ar’’. O livro tematiza a história americana do final dos anos 30 a meados da década de 50, tendo como ponto principal os debates sobre a entrada ou não dos EUA na 2ª Guerra Mundial.
A parte mais curiosa é aquela em que o presidente Franklin Roosevelt teria deliberadamente estimulado os japoneses a atacarem Pearl Harbor para ter um argumento definitivo na mão para levar os EUA a participarem do conflito. Basta essa polêmica para justificar a leitura da obra e refletir sobre os limites entre a ficção e a historiografia. Se o boato sobre a atitude de Roosevelt era comum na década de 1940, torná-la um dos pontos principais da obra parece ser mais uma inteligente escolha de Vidal para permanecer sob a luz dos holofotes, mesmo aos 75 anos.
Ao lado de personagens reais como o casal Franklin e Eleanor Roosevelt, o político Harry Truman, o ator Cary Grant e o dramaturgo Tennessee Williams, o autor coloca em cena a personagem Caroline Sanford, que já aparecera em Império e Hollywood. Ex-atriz da Meca do cinema, Caroline surge agora como a editora de um jornal que reencontra, em Washington, um cineasta que está fazendo um documentário a respeito da opinião de políticos e socialites sobre a tentativa de Churchill de fazer os EUA entrarem no conflito.
O romance peca pelo excesso de história e pouca ficção. Muitos dos comentários críticos e cínicos de Vidal, por exemplo, só têm sentido para aqueles que conhecem profundamente o período abordado e sentem fascinação pela maneira como os EUA conseguiram atingir a liderança econômica e política mundial. Esse estilo de Vidal, porém, não é novidade para quem conhece seus outros romances históricos, como ‘‘Burr’’ e o já mencionado ‘‘Império’’. O maior exemplo é Lincoln, em que o romancista sugere que a frágil saúde do patriarca americano era causada pelas doses de mercúrio consumidas para combater a sífilis.
Além de macular Lincoln, Vidal chamou Ronald Reagan de ‘‘triunfo da arte do embalsamamento’’. Por isso, não causa espanto que aponte, em ‘‘A Era Dourada’’, os presidentes Theodore Rossevelt e Harry Truman – além do escritor Hemingway – como homossexuais. Esse tipo de colocação não deve ser encarada como habitual em um autor que causou escândalo ao publicar, em 1948, ‘‘The City and the Pillar’’, obra cujo protagonista era gay.
Em 1965, quando Vidal já era bem conhecido, o livro, que começou a ser visto como uma revolução na forma de tratar o tema nos EUA, foi relançado, com um novo final. Dois anos depois, Washington D.C., um thriller político que abrange os anos 1937 a 1952, chegou às livrarias tendo como herói Peter Sandford, que reaparece em ‘‘A Era Dourada’’. Os dois livros tratam daquilo que Vidal conhece melhor: eleições, política e poder.
Nascido em 1925 na Academia Militar de West Point, filho de um pioneiro da aviação e neto de T. P. Gore, senador democrata pelo Estado de Oklahoma, Gore conviveu ainda com Jackie Kennedy, a quem conheceu graças a um dos casamentos da mãe. Por isso, figuras célebres, como John F. Kennedy e Henry James, são habituais em suas obras. Retratados vivamente, eles contrastam com o personagem relativamente amorfo que protagoniza ‘‘A Era Dourada’’, o editor da revista independente ‘‘O Ideal Americano’’, Peter Sanford, sobrinho de Caroline. Por meio dele e da tia, o leitor tem acesso aos bastidores da política dos EUA desde a decisão de entrar na 2.ª Guerra até a Guerra da Coréia.
Vidal sabe, como poucos escritores contemporâneos, que o poder é a somatória da riqueza com privilégios. Enfoca assim os endinheirados e os políticos com a sua prosa característica, marcada por diálogos e descrições que revelam nas entrelinhas a trajetória do american way of life. Há ainda em ‘‘A Era Dourada’’ facetas do Vidal ensaísta, premiado, em 1993, com o importante National Book Award por ‘‘United States’’, uma obra essencial para conhecer a política e a literatura dos EUA.
Derrotado, em 1960, como candidato de Nova York ao Congresso; em 1982, como senador pela Califórnia, quando conseguiu 500 mil votos; e na proposta de legalizar as drogas com o argumento de neutralizar a ação da Máfia, o intelectual americano, hoje vivendo na Itália, em Ravello, encontrou no romance histórico sua mais autêntica expressão literária.
Ler Gore Vidal é sempre um agradável desafio. Ele nos obriga a repensar a história americana e a enfocá-la sob novas perspectivas. Polêmico em muitas de suas declarações e posturas como ensaísta e em suas entrevistas à imprensa, ele ainda se mantém como uma das vozes mais poderosas da América – não tanto pelo seu estilo literário, mas pela capacidade de provocar.
• ‘‘A Era Dourada’’, de Gore Vidal, tradução de Paulo Reis. Editora Rocco, 512 págs.

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