OS ESTRANGEIROS EM GRAMADO
Em competição ou fora de concurso, a relação de filmes estrangeiros tem tudo para agradar este ano em Gramado, a exemplo do ano passado. São onze representantes da latinidade americana e européia. Entre eles vários dignos de toda a atenção dos interessados em cinema de considerável envergadura. A começar pelos documentário argentino Los Libros y la Noche, à margem da disputa mas que, simplesmente por existir, já recompensa amplamente a inteligência e a sensibilidade do espectador mais exigente. E a propósito de documentário, a curadoria do festival está inaugurando este ano um segmento não competitivo e específico para abrigar o gênero. É o Espaço Documentário, com quatro títulos em exposição dois brasileiros, um espanhol e um argentino. Opção que deverá unir o agradável e o útil nas matinês durante a próxima semana no Palácio dos Festivais em Gramado, com o público a salvo das tardes provavelmente geladas.
A adaptação de um clássico da literatura do continente é a atração peruana rumo aos Kikitos. Assinado pelo respeitável Francisco J. Lombardi, que em 97 levou a Gramado o ótimo Bajo La Piel afinal preterido em favor do anódino português O Testamento do Senhor Napomuceno Pantaleón y las Visitadoras é baseado na obra homônima de Mario Vargas Llosa. A presença do escritor chegou a ser cogitada para participar do festival, mas a vinda de Llosa acabou não se concretizando. Até onde se sabe, ele aprova a transposição de sua novela para o cinema, de resto obra fundamental. O diretor Lombardi sabe bem o seu ofício, e a julgar pela calorosa recepção que a crítica presente no Festival de Berlim deste ano ofereceu ao filme, Pantaleón... já desponta com boas chances de premiação .
Mas há outros trabalhos a considerar, como o mexicano Santitos, filme que marca a estréia do diretor Alejandro Springall. Também com um cartel de prêmios e referências elogiosas, Santitos é um conto sobre paixão, perda e devoção, em narrativa que mescla romantismo e realismo mágico.
Outro estreante, o uruguaio Mario Gas dirige El Pianista, que representa a Espanha. Não há muitas referências disponíveis, a não ser a reputação do diretor Gas conmo ótimo ator e talentosos homem de teatro. El Pianista é baseado em novela cult de Manuel Vázquez Montalbán. foi concebido para ser uma reflexão sobre 50 anos de história da Catalunha, contada desde o ponto de vista de dois amigos musicos, desde a República até o presente. No elenco, dois veteranos do cinema europeu: Serge Reggiani e Laurent Terzieff.
Assinado pelo veterano Pastor Vega, Las Profecias de Amanda é uma incógnita. Mais uma abordagem na esteira do realismo mágico, desta feita por conta de dons proféticos da Amanda do título. Vega apresenta um currículo que permite expectativas acima da média.
El Mismo Amor, La Misma Lluvia é daqueles romances persistentes que atravessam décadas, modismos, ideologias, crises, idades. E que acabam sobrevivendo na arte dos reencontros. O filme argentino, primeiro longa dirigido por Juan José Campanella na Argentina depois de 15 anos trabalhando nos Estados Unidos, foi exibido este ano no Mercocine Festival de Cine de Punta del Este, não competitivo. Esta simpática crônica de costumes é campeã de bilheteria na Argentina, e obteve em maio oito prêmios Condor, o Oscar portenho. Desde já sério candidato ao Kikito do júri popular.
Finalmente, um dos dois únicos longas-metragens produzidos ano passado no Uruguai. A princípio, El Viñedo, do desconhecido estreante Esteban Schroeder, é uma incógnita a ser obrigatoriamente desvendada. O filme é baseado em história real de um assassinato ocorrido na grande Montevideu.
Fora de competição, uma gratíssima surpresa revelada há pouco mais de dois meses na seção Un Certain Regard, no Festival de Cannes: Capitães de Abril, o longa de estréia da atriz portuguesa Maria de Medeiros na direção. Na mesma seção paralela, as PremiSre Gramado, o colombiano e também seleção oficial de Cannes, edição 98, La Vendedora de Rosas, de Victor Gaviria. Outro descendente em linha direta da muito imitada e nunca igualada escola Pixote, do professor Hector Babenco. Um filme, no entanto, bastante assistível nesta linha deja v#. Los Libros y la Noche , documentário de Tristán Bauer sobre Jorge Luis Borges, é pura festa para olhos e ouvidos. O francês Leste/Oeste, de Régis Wargneir, é a única entrada francesa na mostra. Vem com ótimas referências da crítica francesa, o que com frequência não quer dizer muita coisa. Sandrine Bonnaire e Oleg Menchikov vivem romance ameaçado pela intempéries políticas na Russia do pós-guerra.
E encerrando a lista de estrangeiros, há muito o que esperar do documentário A Propósito de Buñuel, produção espanhola de José-Luis López Linhares.





