Em ''Os Espiões'', o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo segue os passos do britânico John Le Carré, o filosófico autor de grandes títulos de espionagem, mas logo se desvia de sua rota para encontrar uma estrada vicinal que leva a um cruzamento híbrido entre livro policial, crônica de costumes e humor. Principalmente humor.
''Os Espiões'' começa com um editor de ressaca desviando-se dos poemas medíocres que caem em sua mesa até que um livro anônimo, escrito por uma disléxica que ameaça se matar numa cidade interiorana, o leva a investigar sua vida e a tentar salvá-la de um crime. E, se puder, dos erros gramaticais.
Como na obra de Le Carré, que traz invariavelmente comentários sobre a ambivalência moral da classe média, ''Os Espiões'' entra nesse universo de forma igualmente crítica, ao colocar no mesmo pacote leitores e editores consumistas de livros de autoajuda e de melodramas folhetinescos sobre traições amorosas.
Esse foi o objetivo inicial de Os Espiões? Criticar o mercado editorial?
Não. O fato de o narrador trabalhar numa editora é só um gancho para desencadear a trama. Talvez não seja muito evidente, mas todos os meus romances até agora foram, de um jeito ou de outro, sobre a relação do narrador com a narrativa e seus personagens, a velha questão flaubertiana do lugar do autor no texto, da onipotência do autor, do seu distanciamento, etc. O que ''Os Espiões'' comenta, sim, é a compulsão por fazer literatura, ou só publicar livros, que move tanta gente. Mas esta observação faz parte da misantropia geral do narrador.
Os intelectuais são retratados em Os Espiões de forma pouco favorável, a começar pelo editor bêbado. Você acredita que a cultura brasileira favoreça o advento desse tipo de intelectual etílico ou que álcool e criação literária andem juntos?
Os intelectuais do livro são frustrados como o narrador, pouco sérios como o Dubin ou falsos como o professor Fortuna, e os três são medíocres. Não creio que representem nenhum tipo de intelectual brasileiro. Me parece, inclusive, que o álcool, ''a musa sedenta'', como já foi chamado, não inspire mais intelectuais como inspirava há algum tempo. Ou então eu é que ando na turma errada.
Seu livro começa com muito humor e vai deixando um gosto amargo na boca à medida que avança no terreno pantanoso da classe média. É possível conservar o humor diante do quadro negro representado por uma cultura hedonista e criminosa?
Descontado o final trágico, que não deixa de ser uma trapalhada, há humor em todo o livro. Pelo menos a intenção era esta. O livro é a história de um engano. Os quatro personagens porto-alegrenses pensam que estão numa história que podem manipular e estão em outra, que os manipula. De desencontros assim são feitas as comédias, mesmo que de vez em quando morra um inocente. Ou no fim todo o mundo perca suas ilusões.
A ficção é para você um refúgio ou um acerto de contas com a mediocridade de um mundo em que a poesia parece não ter mais lugar?
Minha ficção não pretende nada tão importante. E acho que se o livro tem alguma ''mensagem'' colateral é a que a literatura não substitui a vida.

SERVIÇO
- Os Espiões
Autor - Luis Fernando Verissimo
Editora - Alfaguara
Quanto - R$ 31,90 (144 pág.)

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