OS ECOS DE HENDRIX
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Chovem homenagens a Jimi Hendrix. O lançamento de uma caixa com quatro CDs, uma exposição de objetos pessoais e programas especiais na TV celebram mais uma data redonda do aniversário de sua morte.
Para os fãs do mundo todo, a novidade está no pacote de discos, que traz mais de quatro horas de gravações inéditas do guitarrista incluindo uma versão ao vivo de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles.
O material já abastece o mercado internacional. No Brasil, a previsão é que chegue às lojas pela gravadora Universal entre o final do mês e começo de outubro acompanhado de alguns produtos requentados. Hendrix, apesar de sua curta trajetória, deixou um baú sem fundo para a posteridade.
Sua obra póstuma já é suficiente para lotar vagões. Mas das centenas de fitas gravadas e transformadas em álbuns, talvez pouco esteja à altura dos três discos oficiais lançados pelo Jimi Hendrix Experience no apogeu do psicodelismo: Are You Experienced? (1967), Axis: Bold As Love (1967) e Electric Ladyland (1968).
Lisergias, levadas funk, pop songs e virtuosismo sumarizam aí a efervescência da época revelando ainda um artista preocupado em explorar ao máximo os recursos de gravação e equipamentos de estúdio. Jimi Hendrix movia-se no terreno da invenção sublinhou certa vez a crítica Ana Maria Bahiana, autora de um livrinho de bolso sobre o artista.
Ao comando do músico, os pedais não obedeciam à técnica pura e simples mas à caça de novos timbres e à expansão de novas possibilidades tonais. O que procuro é uma mistura de rock, blues e jazz, algo que ainda está se desenvolvendo, uma música do futuro. Eu não a chamaria, em circunstância alguma, de psicodélica. Psicodélicos foram Bach e Beethoven declarou ele numa entrevista.
Hendrix foi o primeiro guitarrista a transformar defeito em efeito inventando a utilização musical da microfonia, o que foi adotado posteriormente como um evangelho por bandas alternativas como Jesus & Mary Chain e Sonic Youth. Ele costumava compor caminhando pelo estúdio: ligava o amplificador e deixava a inspiração rolar enquanto a gravação era feita.
Autodidata, era incapaz de escrever ou ler música. Começou a tocar aos 12 anos imitando seus ídolos de blues. Depois de servir o Exército como paraquedista - ele se safou da convocação para a Guerra do Vietnã porque se acidentou em um salto -, pôs o pé na estrada. Rodou de ponta a ponta o país tocando em mais de trinta bandas de rhythm and blues.
Foi músico de apoio de Little Richard, Isley Brothers e Ike & Tina Turner. Participou também de uma turnê conjunta de B.B.King, Solomon Burke, Sam Cooke e Jackie Wilson. Hendrix foi o primeiro astro do rock a sair de Seattle, berço no começo dessa década das bandas grunge. No palco, ele improvisava o caos. Por ser canhoto, tocava a guitarra virada ao contrário e com o encordamento invertido.
Seus primeiros shows em Londres, para onde foi levado por Chas Chandler (baixista do The Animals e empresário de várias bandas na época), empolgaram ilustres como Paul McCartney, Jeff Beck, Keith Richards e outros que faziam fila para assistí-lo primeiramente em pubs enfumaçados e depois em grandes casas de espetáculos.
Diz a lenda que até Eric Clapton, então aclamado como o deus da guitarra, teria pensado em parar de tocar depois de vê-lo em ação com a Stratocaster branca. A mistura de rhythm and blues com o psicodelismo logo lhe daria fama e prestígio na terra da Rainha, o que só ocorreria mais tarde nos Estados Unidos. A estréia no mercado fonográfico foi bem-sucedida. Os singles Hey Joe, Purple Haze e The Wind Cries Mary entraram no Top Ten inglês.
Paralelamente, o status de mito crescia a cada cacoete cênico do músico. No programa de TV Top of The Pops, terminou a apresentação tocando a guitarra com os dentes. No festival Monterey Pop, repetiu o gesto e apimentou o desempenho simulando uma relação sexual com o instrumento. Numa imagem emblemática, finalizou o show espancando a guitarra nos amplificadores.
Kurt Cobain repetiu a selvageria diversas vezes, inclusive no Brasil quando veio ao Hollywood Rock. Em Woodstock, coube a Hendrix fechar o maior festival de rock de todos os tempos. Mais de 400 mil pessoas tinham se reunido na fazenda no mais famoso encontro de paz e amor ritualizado pela geração flower power. Seu show estava previsto para o final da terceira e última noite, mas os atrasos o fizeram subir ao palco com o sol da manhã.
Para rebater o bode, chacoalhou a platéia executando clássicos de seu repertório como Voodoo Chile, Purple Haze e Fire, além de uma versão do hino nacional americano (The Star Spangled Banner). A última vez que subiu num palco também foi num festival, o da Ilha de Wight, realizado em agosto de 1970. O elenco incluía nomes como The Who, The Doors, Miles Davis, Joan Baez o trio expoente do rock progressivo Emerson, Lake & Palmer.
A exemplo do que aprontara em Woodstock, Jimi resolveu extrair faíscas também do hino nacional inglês abrindo seu set com uma versão de God Save The Queen. Mas, em companhia de Billy Cox no baixo e do baixista Mitch Michell, ele fez uma apresentação aguada não conseguindo entreter os milhares de hippies chapados. Foi sua despedida dos palcos.
Algumas semanas depois, na manhã do dia 18 de setembro, ele silenciou a guitarra depois de ingerir nove pílulas para dormir e sufocar-se com o próprio vômito. Tinha 27 anos. A tragédia selou o enterro da contracultura ao lado do fim dos Beatles e das mortes de Brian Jones, Janis Jopin e Jim Morrison. É a vitalidade de sua obra, porém, que o lançamento da nova caixa de CDs procura ressaltar.
A família do guitarrista, que readquiriu os direitos sobre sua música há poucos anos, cuidou de todo o projeto. A caixa, contendo quatro CDs, chama-se Jimi Hendrix Experience. Traz 56 faixas reunindo gravações de shows feitos em Paris (1966) e no citados festivais de Monterey Pop (1967) e Ilha de Wight (1970). Inclui ainda as composições inéditas Title 3, Its Too Bad e Country Blues e versões alternativas de alguns standards.
Um livro com fotos inéditas e um ensaio do crítico de rock Dave Marsh vem embutido no pacote. Para homenagear o membro mais famoso da família, os Hendrix montaram também uma exposição reunindo suas roupas, instrumentos e pinturas no Rock and Roll of Fame and Museum, em Cleveland. No Brasil, a fornada de lançamentos da gravadora Universal inclui a caixa, mais uma edição especial limitada do CD duplo Experience Hendrix, os três célebres álbuns já lançados; além dos DVDs Live at the Filmore East e Live at Woodstock.
Ainda por aqui, o canal Fox presta tributo ao guitarrista com a exibição amanhã de dois especiais: Ao Vivo na Ilha de Wight às 22 horas e Electric Ladyland à meia-noite.


