Os dois surtos de Adriana Calcanhotto
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 2009
Rodrigo Juste Duarte<br>Equipe da Folha 
Foi só entrar no avião. Voo do Rio de Janeiro até Lisboa. Pronto! A cantora Adriana Calcanhotto iniciava não apenas sua mais recente turnê portuguesa, mas também uma jornada de vários dias e noites sem dormir. Tudo começou com uma forte gripe, contraída logo após o primeiro show. Os médicos receitaram nove remédios, além da cortisona, que ela usa há anos para tratamento de um problema glandular.
A mistura explosiva gerou um surto psicótico na cantora, que a deixou em estado de medo e delírio, além da falta de sono, acumulando 110 horas ''em claro''. ''Nunca vivi nada parecido antes. Nem depois'', relata Adriana, em entrevista à FOLHA. Ao invés de entrar em pânico, escrevia constantemente em seu laptop como uma forma de terapia. Quando se deu conta, percebeu que estava escrevendo um livro. A experiência agoniante resultou em ''Saga Lusa, o relato de uma viagem'', que chegou recentemente às livrarias.
Adriana pode não ter se dado conta, mas ela teve um duplo surto. Além do clínico, teve também um surto literário. Seu texto vai além do relato diário, incorporando, com um estilo bastante peculiar e de leitura fluida, elementos da língua portuguesa falada no Brasil e em Portugal, inspirada nos diferentes sotaques ao seu redor durante aqueles dias de maio.
''Nunca pensei em escrever um livro embora muitas pessoas me perguntassem sobre isso antes, se eu tinha planos de escrever. A verdade é que, fora minha correspondência eletrônica que é vasta e constante, ou seja, é meu exercício diário de escrita, não costumava escrever e, aliás, continuo não escrevendo'', afirma.
Aliás, é com um e-mail enviado a um amigo no Brasil (incluindo o cabeçalho técnico de internet) que se inicia o livro. Há também inserções de letras de música, poesia concreta, reprodução de aquecimento de voz, entre outros recursos textuais e até visuais. ''Acho que não foge muito da minha escrita de canção, de ser imagético'', comenta.
Dentro desta catarse, Adriana encontrou um terreno livre, onde pôde brincar com as palavras e expressões, criar um neologismo (''não posso panicar'', lembra ela em diversas passagens), fazer referências a diversos artistas que admira (de Madonna a Camané), falar de detalhes de sua vida particular, inclusive trazer revelações à tona, como por exemplo o fato de ter cancelado a primeira apresentação de sua carreira para assistir a um especial do cantor Gilberto Gil na televisão.
Alguns podem imaginar que um livro escrito por um artista da música durante um surto psicótico pode soar pedante, exagerado, coisa de estrela do show business, mas Adriana foge desta imagem da primeira até a última página, especialmente por ser muito bem humorada e autoirônica. Uma cantora ''estrela'' jamais faria piadas consigo mesmo, ainda mais diante de uma situação tão difícil (''Fazer gozação da própria tragédia é sinal de sapiência'', diz um certo ditado). Assim ela conquista o leitor, mesmo sem ter pensado em quem seria o público de seu livro, que foi escrito para ela mesma, antes de mais nada, como um remédio, um calmante.
Lembrei que diz-se que para cada sentimento humano, para cada mais sutil sensação, para qualquer situação possível nesta vida, já há uma música correspondente no cancioneiro brasileiro. Pensei nisso porque me veio à cabeça uma canção mais antiga, e era incrível como se encaixava perfeitamente e traduzia (sem perdas) o meu estado naquele momento. No dia seguinte, no segundo show do Porto, como sou intérprete de forte inclinação existencialista, incluí no alinhamento a bela melodia dizendo eu queria tanto estar/ no escuro do meu quarto/ à meia-noite, à meia-luz, sonhando/daria tudo por meu mundo e nada mais
Dei uma choradinha de medo, acordando do sonho mau, mas é diferente daquele choro de verdade, que lava a lama, que diluiria a Coisa provavelmente ralo abaixo, inundaria o quarto de lágrimas e faria de mim Alice (ou até Ofélia), que é choro mesmo, não chororô. Mas este, o choro mesmo, não me sai, vem, não consigo, e encaro então como sendo algo pelo que preciso passar, no seco, e pronto .
Serviço
-Saga Lusa - O Relato de uma Viagem
Autora - Adriana Calcanhotto
Editora - Cobogó
Quanto - R$ 29,90 (168 págs.)


