‘‘O Lobo e o Mar’’, um dos romances mais famosos de Jack London, apresenta o duelo entre duas concepções do mundo: a moral civilizatória e o impulso instintivo
Existem romances que, fugindo dos padrões, conferem um valor superior aos personagens secundários. O herói, apesar do incansável empenho, torna-se menos interessante que seu antagonista. Em alguns casos, o próprio protagonista chega a trocar de papel com o antagonista e vice-versa.
Um exemplo disso está em ‘‘O Lobo do Mar’’, um dos mais famosos romances do escritor norte-americano Jack London (1876-1916) ao lado de ‘‘Caninos Brancos’’ e ‘‘O Chamado Selvagem’’. Nele, o antagonista que deveria elevar os feitos do herói, se transforma no verdadeiro protagonista. Não consegue esse feito por atos ou ações, mas pela força de sua personalidade.
A Editora Ática, dentro da coleção ‘‘Eu Leio’’, acaba de lançar uma nova e bem cuidada edição de ‘‘O Lobo do Mar’’ que preserva o texto integral. A obra recebeu várias versões no decorrer das últimas décadas que não ofereciam o texto de Jack London em sua dimensão original. Monteiro Lobato, por exemplo, em sua tradução do romance realizada há mais de 50 anos, optou por subtrair os episódios violentos da histórias pensando em não influenciar os leitores mais jovens.
Publicado originalmente em 1904, ‘‘O Lobo do Mar’’ foi escrito sob influência de novas idéias em ebulição na época. Entre os cientistas e filósofos que London se encontrava debruçado, estavam Charles Darwin (1809-1882) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Apesar de tratar-se de um ‘‘romance de aventura’’ que culmina num ‘‘romance de amor’’, as idéias de Nietzsche, Darwin, Karl Marx, Schopenhauer, Herbert Spence e outros pensadores estão espalhados em suas páginas.
‘‘O Lobo do Mar’’ narra a história de um rico intelectual chamado Humphrey van Weyden que, durante uma viagem de barco em San Francisco, sofre um naufrágio e é resgatado por uma navio a caminho do Japão. Apesar de próximo do litoral, o responsável pela embarcação, o capitão Lobo Larsen, obriga o novo tripulante a seguir viagem com eles na categoria de marinheiro. O objetivo é a caça de focas, que são mortas e suas peles levadas para serem transformadas em casacos de peles para as mulheres da sociedade que o náufrago faz parte.
Inserido num ambiente muito diferente do seu, Weyden precisa conviver com pessoas e situações adversas. O capitão Lobo é um homem violento e autoritário, mas por outro lado, lê os mesmos livros que seu novo tripulante intelectual. Assim, durante aventuras em alto mar, ele discutem vida a partir de princípios filosóficos. Cada um possui leituras distintas do mesmo ponto de vista. Assim, trava-se um guerra de idéias, visões de mundo, de princípios morais e da condição humana.
A narrativa de Jack London trabalha com polaridades. Weyden é bom, Lobo é mau, Weyden é gentil, Lobo é rude, Weyden é fraco, Lobo é forte, e assim por diante. Nesse antagonismo didático, Lobo procura forjar o caráter de Weyden, um banana filhinho de papai, e Weyden procura sair vivo da sofrida aventura inesperada.
A melhor de ‘‘O Lobo do Mar’’ são os diálogos filosóficos entre os dois. Enquanto um diz: ‘‘A vida, quando sabe que vai parar de existir, revolta-se. Não consegue evitar. O predador achava que a vida e seus atos, tudo é vaidade, aflição e maldade; mas a morte, a impossibilidade de sentir vaidade e aflição parecia ainda pior para ele.’’ O outro argumenta: ‘‘Com a perspectiva da imortalidade, o altruísmo se tornaria uma ação compensadora. Seria capaz de fazer a minha alma ascender a qualquer altitude. Mas sem nada eterno à minha frente, a não ser a morte, só com um curto espaço de tempo para este fermento que se chama vida rastejar e contorcer... Bem, será imortal praticar qualquer ato que seja um sacrifício para mim. Qualquer sacrifício que me faça perder um movimento que seja, uma única vibração, é loucura total; mais do que isso, é um ato que me prejudica, um ato cruel.’’
O confronto intelectual – de poder – entre os dois se estende para o campo amoroso. Uma mulher, vítima de outro naufrágio, passa a fazer parte da tripulação. Lobo e Weyden se apaixonam pela mesma mulher. O circo da condição humana pega fogo com cada um acentuando a projeção do próprio caráter.
Ao final de tudo, o banana Weyden sobrevive graças aos ensinamentos de Lobo, que o transforma num homem completo, equilibrado entre pensamento e ação. Por outro lado, Lobo padece por não se sujeitar aos princípios morais de Weyden. No decorrer de várias situações, Lobo assume a imagem do verdadeiro herói, mesmo derrotado. Isso porque a vitória de Weyden assume a forma de um verbete dicionário que pode ser transformado em filme de Hollywood.
Jack London nasceu na cidade de San Francisco, Estados Unidos, em janeiro de 1876. Seu verdadeiro nome era John Griffith. Numa infância pobre, cresceu em situações adversas. Começou a trabalhar aos 11 anos de idade vendendo sorvete e jornal. Do trabalho passou ao roubo, tornou-se ladrão de ostras e logo na sequência policial do setor de contrabando. Segundo a lenda, aos 16 anos de idade já era alcoólatra. Logo entrou como garimpeiro na corrida do ouro que agitou a América no Norte no final do século 19.
Totalmente autodidata, perambulou pelos mais variados empregos e situações possíveis, até passar uma temporada na cadeia preso por vadiagem. Ao descobrir que poderia ganhar uns trocados escrevendo histórias, entrou de cabeça na profissão. Além de influenciar a geração de Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, criou clássicos de grande popularidade que, com o tempo, se transformaram em obras de referência para a literatura juvenil moderna.
O Lobo do Mar – De Jack London, Editora Ática (telefone 11 3346-3000), tradução e apresentação de Geraldo Galvão Ferraz, ilustrações de Montalvo, 328 páginas, R$ 16,50.

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