'Os Dois Papas': quando os opostos se atraem
Atores estão no auge de suas competências como o conservador Ratzinger e o liberal Bergoglio, debatendo o Vaticano na era moderna
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de janeiro de 2020
Atores estão no auge de suas competências como o conservador Ratzinger e o liberal Bergoglio, debatendo o Vaticano na era moderna
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Projeto oferecido pela Netflix ao diretor Fernando Meirelles (“O Jardineiro Fiel”, “Cidade de Deus”, “Ensaio Sobre a Cegueira”), não é tanto a cinebiografia de Jorge Bergoglio antes do início de seu papado, como também é um relato imaginário sobre sua relação com seu antecessor, Joseph Ratzinger.
A sucessão papal de 2013 rompeu vários precedentes. Por quase 600 anos nenhum papa havia deixado o trono por renúncia ao invés de ter morrido no cargo; e mesmo o veneziano Gregório XII, quando deixou o papado em 1415, não saiu por vontade própria: foi defenestrado pela feroz oposição católica durante uma das fases mais conturbadas da Igreja. Joseph Ratzinger/Bento XVI, renunciou por vontade própria; seu sucessor, Jorge Mario Bergoglio, foi o primeiro papa jesuíta, o primeiro das Américas e do hemisfério sul, e o primeiro de fora da Europa desde Gregório III, o papa sírio do século VIII.
Mas a transição de Bento para Francisco marcou uma mudança ainda mais fundamental. Bento, o ex-cardeal Joseph Ratzinger (conhecido como “Rottweiler de Deus” quando era chefe da Congregação para a Doutrina de Deus, uma espécie de sucessora da Inquisição), era inteiramente conservador em seus pontos de vista, tanto social quanto teologicamente. Bergoglio, criado em família pobre em Buenos Aires, era conhecido pela flexibilidade e pelo liberalismo, pelo modo de vida despretensioso, por sua aversão à pompa e à riqueza ostensivas da Igreja. Não é de admirar que, no filme de Meirelles, o papa Bento XVI (Anthony Hopkins)reclame a Bergoglio (Jonathan Pryce) que o “modo de vida” dele, mesmo na escolha dos sapatos, seja uma crítica implícita a ele, Ratzinger.

Obviamente, se Bento XVI disse algo assim é ponto altamente discutível; não é absolutamente certo que os dois homens se conheceram por um determinado período de tempo, muito menos realizaram o tipo de longas discussões íntimas que ocupam a maior parte do filme. Mas importa é que, graças ao roteiro fluentemente criativo, espirituoso e incisivo de Anthony Mccarten (autor de “A Teoria de Tudo”, “O Destino de Uma Nação” e “Bohemian Rapsody”) e as performances de extraordinária eficiência de Pryce e Hopkins, “Os Dois Papas” seja digerível com alta dose de plausibilidade. As falas de Bergoglio, em particular, são ainda mais verossímeis quando comparadas com as observações do Bergoglio/Papa Francisco no documentário recente – e um tanto hagiográfico – de Wim Wenders, “Pope Francis: A Man of his World”(2018).
Os créditos de ator devem também ser dirigidos a Juan Minujin, que interpreta Bergoglio mais jovem e atormentado durante os anos difíceis da sangrenta ditadura argentina, após o golpe militar de 1976. Em série de flashbacks em preto e branco, mostra-se a culpa que ele sente por não ter denunciado as torturas pela repressão assassina da junta militar, especialmente o tratamento hediondo sofrido por dois mais próximos a ele. O espectador conhece Bergoglio aqui melhor do que Ratzinger, embora haja referências (mais ou menos vagas) à resposta omissa de Bento à pedofilia sacerdotal, e nas ruas de Roma algumas pessoas cospem “nazista” ao mencionar seu nome. O filme oferece a ele alguma proteção: quando se confessa a Bergoglio, presumivelmente sobre o escândalo do abuso, o som do diálogo desaparece.
Este é um filme consistentemente agradável e fascinante, uma conversa entre um casal de idosos que equilibra closes para destacar a sutileza das expressões, reações e linguagem corporal dos personagens centrais. Os diálogos e as atuações é que triunfam. Os três roteiros anteriores de McCarten deram aos intérpretes o Oscar de melhor ator. Um quarto poderia muito bem estar próximo, não houvesse um Coringa nas imediações...


