Os devaneios da lógica
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Um dos livros mais significativos publicados no Brasil na década de 90 não foi obra de um literato. Foi criação do artista plástico paulista Nuno Ramos. Lançado em 1995, ''Balada'' impressionava não tanto pelo tamanho, centenas e centenas de páginas, mas pelo conteúdo.
''Balada'' não trazia nenhuma palavra. E nem precisava. Em cada exemplar Nuno Ramos disparou um tiro de pistola de grosso calibre. Cada exemplar trazia uma bala incrustada em suas páginas. Ao folhear a obra, o leitor percorria a trajetória da bala pelas folhas até encontrá-la, instalada numa página determinada pelo acaso.
Nuno publicou outras obras mais convencionais, livros repletos de palavras impressas reunindo contos e narrativas: ''Cujo'' (Editora 34, 1993), ''O Pão do Corvo'' (Editora 34, 2001) e ''Ensaio Geral'' (Editora Globo, 2007). Essa semana a Editora Iluminuras coloca nas livrarias sua nova obra que possui o menor título que um livro é capaz de ter. Uma única letra: ''Ó''.
''Ó'' traz 25 textos que trafegam entre a narrativa poética e a reflexão filosófica. As duas formas se intercalam ao longo das páginas onde uma linguagem se contrapõe à outra sinalizando caminhos distintos. Escritos entre 2002 e 2008, formam duas unidades paralelas, duas maneiras de olhar a proximidade do mundo.
Nas reflexões filosóficas, Nuno Ramos focaliza temas distantes e diversos num mesmo texto. Assuntos desconexos ganham, aos poucos, uma proximidade inesperada revelando conexões que caminham para a noção de abrangência. Os próprios títulos dos textos assinalam esse processo.
Em ''Galinhas, Justiça'', por exemplo, o autor começa focalizando as galinhas como os bichos mais imbecis do reino animal e avaliando as condições desumanas as quais são submetidas pela fúria comercial da agroindústria. Em seguida aborda o processo em que os homens passam quando estão no interior da multidão, ou encarcerados, desprovidos de qualquer tipo de individualidade ou vontade própria. Depois levanta a questão de a justiça ser um mecanismo que particulariza o crime julgando um detalhe como se ele representasse a vida como um todo.
Isolados, esses assuntos caminhariam em direções diversas, lado a lado, através de conexões e devaneios, ganham uma outra dimensão. As associações livres tornam-se associações lógicas. Os títulos dos textos representam esse tráfego de idéias e percepções. Coisas como ''Tocá-la, Engordar, Pássaros Mortos'', ''Recobrimento, Lama-Mãe, Urgência e Repetição, Cachorros Sonham?'' e ''Prédios Vazios, Contra Fatos, Arquitetura Ruim, Simultaneidade''. Ou ''Coisas Abandonadas, Gargalhada, Canção da Chuva, Previsão do Tempo'', ''Ida à Lua, Ida a Marte''.
Títulos como esses podem parecer ter pulado de um enorme baú dadaísta cravejado de pedras surrealista. Na realidade eles apenas propõem uma síntese para o devaneio da lógica, para o raciocínio investigativo contemplado através das angulares lentes das associações.
Nascido em 1960, Nuno Ramos começou a carreira artística pintando quadros e rapidamente se envolveu com a arte conceitual. A partir da década de 80 suas obras passaram a trafegar entre a instalação e a escultura. Considerado um dos grandes nomes da arte brasileira contemporânea, transita livremente entre várias linguagens e materiais diversos.
Fragmento de Ó de Nuno Ramos
Mas há o ovo, a obra-prima comum a todas as aves, uma perfeita combinação de higiene e de asco, de assepsia e de gosma, de transparência e amarelo de cádmio, de sol e placenta, desastre e construção, de solidez e fragilidade, origem e fim. São tantos os significados, quase todos reversíveis, que não vale a pena enumerá-los. No entanto, quem já quebrou sem querer um ovo dentro do bolso do casaco e teve de limpá-lo depois misturado aos documentos conhece o amarelo incontrolável invadindo o forro da pelúcia num dia frio. Não há propriamente como tirá-lo de lá, pois mesmo não sendo sólido refugia-se numa unidade gelatinosa que reage e escapole entre os dedos, e continua ovo, ainda dentro do bolso.
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SERVIÇO
- Ó
Autor - Nuno Ramos
Editora - Iluminuras
Páginas - 289
Quanto - R$ 44


