Boa dose de parcimônia (mas não somente...) é o segredo de "Hereditário" para narrar um conto sobre luto, desintegração familiar, catarse, fantasmas e possessões
Boa dose de parcimônia (mas não somente...) é o segredo de "Hereditário" para narrar um conto sobre luto, desintegração familiar, catarse, fantasmas e possessões | Foto: Divulgação


Crítico de cinema da Folha de São Paulo baseado em Los Angeles e habitual companheiro de festivais, meu amigo Rodrigo Salem vai me desculpar, mas "Hereditário" não é o "filme de horror mais perturbador dos últimos tempos", como afirmou em matéria veiculada na Folha2. O filme de horror mais perturbador dos últimos tempos não é ficção, é reality show e chama-se "A Era Trump", vivido pelo demônio travestido. Até o momento, ninguém para exorcizá-lo.

"Hereditário" está à disposição em várias salas da cidade, e oferece uma serie de atributos que valem uma visita. A distribuidora independente Diamond manteve o título original na tradução em português, o que pode dificultar um pouco a aproximação do grande público - tomara que o boca a boca funciona: o filme é de fato bom. Em vários países de língua hispânica, por exemplo, atende pelo nome de "O Legado do Diabo": se por um lado o apelo imediato foi decisão comercial, e demonstra estratégia de marketing (spoiler incluído), por outro o filme é bem diferente das mínimas expectativas que a produção pode gerar. Esta história de fantasmas e possessões protagonizada por uma notável Toni Colette (mas não apenas ela) tem muito de inquietante e muito pouco de convencional. Está mais próximo de argumentos como "O Exorcista" e "O Bebê de Rosemary" do que da modelagem contemporânea de uso mais rasteiro que a cada semana programa milhares de salas do mercado internacional.

Dos 127 minutos de sua duração, "Hereditary", a primeira metade tem muito pouco do figurino padrão do gênero. Estamos diante de uma decomposição familiar – a princípio psicológica, mais tarde física – provocada pelo trauma e pela morte. Esta parte inicial está cheia de cenas ambíguas, nas quais as verdadeiras emoções dos protagonistas se escondem por trás de máscaras distintas. Enquanto isso, uma serie de fatos vai preparando o terreno para a aparição do impossível: um túmulo profanado, os sinistros passatempos da problemática adolescente Charlie (Milly Shapiro) um acidente atroz, portas fechadas à chave que aparecem completamente abertas.

Logo em seu prólogo, o filme começa percorrendo um quarto repleto de maquetes que em seu interior reproduzem os ambientes domésticos. A câmera acaba penetrando em um deles, justamente quando Steve (Gabriel Byrne), o marido de Annie (Colette), entra no quarto de Peter (Alex Wolff), o filho mais velho do casal, e o acorda para o velório da avó. Longe de ser uma demonstração gratuita de virtuosismo estético, este truque da câmera tem varias razões que o justificam. Por um lado, apresentar o trabalho artesanal de Annie, a quem a australiana Toni Colette empresta seu impressionante arsenal de recursos dramáticos. Ela constrói miniaturas realistas de diferentes cenas cotidianas, utilizando algumas delas para recriar momentos traumáticos de sua própria vida. Como se se tratasse de signos terapêuticos, nessas cenas aparecem conflitos irresolvidos que a família carrega e que funcionam narrativamente como flashbacks que fornecem pistas sobre a origem da crise que envolve a todos na casa.

Se na parte inicial o relato se concentra no luto, e de que forma os familiares resolvem sua maneira de conviver com os vazios que a morte deixa quando passa, a segunda metade se tornará catártica. Por esta via a família vai afinal verbalizando os conflitos que até então se mantinham sob o tapete; mas também será aberta uma porta para que aquilo que espreita no escuro possa finalmente penetrar e vampirizar o núcleo familiar.

"Hereditário" está desde já fadado a converter-se em clássico. A solidez com que o diretor estreante (em longas) Ari Aster maneja os recursos dramáticos, técnicos, visuais, sonoros e narrativos, somado ao timing com que transpõe o drama à tragédia e depois ao gore (ou às referencias gráficas brutais), o colocam à altura de outro novo talento, o Jordan Peele que ano passado surpreendeu a todos com "Corra". O colapso da estrutura que sustenta a sanidade, a eficiência no jogo que transforma o inesperado e o cotidiano em ameaças são algumas das coincidências que ligam os dois diretores.

"Hereditário" fala afinal, e literalmente, sobre como as pessoas "lidam com seus demônios". Mas mesmo em seus momentos mais estranhos e selvagens, o filme deixa claro que importam mais as pessoas do que os demônios.

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