Os crimes do norte gelado
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segunda-feira, 01 de agosto de 2011
Ubiratan Brasil <br> Agência Estado 
São Paulo - A realidade tornou-se mais surpreendente que a ficção nórdica, quando um assassino matou 77 pessoas na Noruega há dez dias. Justamente em uma área onde o índice de desenvolvimento humano é o mais alto do planeta e onde crimes bárbaros povoavam apenas as tramas dos romances policiais - histórias como da atriz somali encontrada morta e congelada no Círculo Polar Ártico, com os olhos arrancados; ou da apresentadora de tevê cujo corpo foi encontrado sem a língua, embrulhada em um origami. Ainda é cedo para medir as consequências da tragédia na literatura policial nórdica, acredita o islandês Arnaldur Indridason, autor de ''O Silêncio do Túmulo'', lançado agora pela Companhia das Letras. Livro que aumenta a soma das obras de suspense escritas por autores nórdicos editadas no Brasil, confirmando uma tendência que se alastra pelo mundo - em 2009, por exemplo, a lista dos mais vendidos na Europa fechou com três suecos relacionados.
O segredo de tamanho sucesso, segundo especialistas, é que os policiais nórdicos (especialmente suecos, dinamarqueses e islandeses) contam histórias que vão além do mistério, oferecendo ainda crítica social e temas para a reflexão dos leitores.
De fato, em países onde o índice de criminalidade é praticamente zero (embora o consumo de antidepressivos seja estonteante), é normal encontrar leitores ávidos pela solução de assassinatos ocorridos em cenários invernosos, com personagens reflexivos, muitas vezes deprimidos, em histórias desbotadas pelo pessimismo.
É o caso de ''O Silêncio do Túmulo'', cujo início é de tirar o fôlego: em uma festa infantil, um bebê aparece chupando um osso humano. Trata-se de parte de um esqueleto encontrado nas gélidas imediações de Reykjavik, capital da Islândia. Missão para o inspetor Erlendur, personagem criado por Indridason, um homem deslocado, fumante inveterado, consumidor de comida congelada e com problemas de relacionamento com os filhos.
Estado independente desde 1944, a Islândia é uma ilha vulcânica próxima do Ártico, onde vivem 300 mil pessoas, laboratório para investigação da biomedicina por ter uma população pequena e bem caracterizada em termos de cuidados médicos, genealógicos e sociológicos. Sobre o assunto, Indridason respondeu, por e-mail, as seguintes questões.
O início da trama de ''O Silêncio do Túmulo'' é fascinante. O que te inspirou?
É sempre importante ter um início impactante e eu tinha essa imagem de um bebê brincando com um osso humano. Não estou certo de onde vem isso, mas um de meus cineastas favoritos é Alfred Hitchcock e acredito que ele teria adorado essa ideia. Ninguém foi melhor que ele em balancear humor e caos.
Seu personagem Erlendur é atípico.
Ele evoluiu com os livros. Eu não o conhecia bem quando comecei a escrever a série. Sabia apenas que ele teria raízes fincadas na história e na cultura da Islândia e que também seria diferente de todos os milhares de detetives ficcionais que existem no mundo. Sua vida não é boa e parte dela pode ser rastreada em seu passado, quando perdeu o irmão em uma tempestade de neve. Mas ele sobreviveu a si mesmo. Erlendur vem do interior e não gosta muito de Reykjavik. O que aconteceu desde a 2. Guerra Mundial é que as pessoas se deslocaram do campo para a cidade à medida que a sociedade deixou de ser pobre e se transformou em um centro rico e moderno. Nessa evolução, muitos ficaram para trás, como Erlendur, pois nunca foi capaz de se conectar com os tempos modernos.
O fato de ser crítico de cinema afetou sua literatura?
Aprendi muito assistindo filmes, especialmente sobre histórias mal contadas. Realmente acredito que aprendi muito com filmes ruins, que são maioria. Às vezes, visualizo cenas que estou escrevendo como imagens de cinema e sempre busco o realismo, especialmente na caracterização. É preciso que os personagens sejam críveis para o leitor. É por isso que gosto de séries de TV como The Wire: acredito em tudo que acontece nessas histórias.
Existe uma profunda afinidade entre a literatura e a psicanálise de suspense, no sentido de que há sempre, em ambos, uma verdade escondida a ser descoberta?
Acredito que sim. Quando comecei a escrever, logo descobri que o gênero policial era meu caminho natural. Segredos escondidos e, depois, desvendados pouco a pouco e na hora certa; os motivos que explicam por que eles estão lá e por que razão são segredos; os efeitos que têm sobre relacionamentos, a arte de se ocultar fatos, o perigo envolvido - tudo isso é maravilhoso.


