Os corações universais de Alan Resnais
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha2 
As asperezas cinematográficas que o olvidável cotidiano de imagens burocráticas impõe ao crítico fazem deste ofício, não poucas vezes, a solitária escritura do ócio muito próximo da indignidade. Embora pareça o contrário, nunca é fácil produzir textos que expressem em palavras esta imensa maioria de filmes que deveria não escoar pelas salas, mas sumariamente pelo ralo. Assim, encaminhar as excelências de um produto tão deliciosamente atípico como Medos Privados em Lugares Publicos é, antes do dever, um privilégio. O filme estréia hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2).
Sim, é isto, privilégio. E honra, diante do mais recente trabalho deste velho mestre do cinema francês, deste octogenário Alain Resnais que durante muito tempo foi considerado por muitos apenas um cineasta cerebral, virtuoso da câmera, sutil ilustrador de textos alheios ou somente estilista refinado, e que hoje pode ser venerado também como o velho sábio um tanto desencantado que segue examinando, com espírito terno e sorriso irônico nos lábios, as vacilações da espécie humana.
Nos últimos dez anos, e pelo menos na superfície, este criador de obras-primas que marcaram o cinema por seu seminal experimentalismo nos anos 1960 e 70 vem direcionando seus passos para o registro da comédia. Durante a entrevista coletiva que concedeu há dois anos no Festival de Veneza, quando ganhou o Leão de Prata pela direção deste Medos Privados..., ele pareceu, como sempre, observar seus personagens como cobaias de laboratório, com a mesma ironia, mas agora também com amor e ternura. Parece que o coração do diretor dos antológicos O Ano Passado em Marienbad, Hiroshima Meu Amor e Meu Tio da América está mais suscetível aos sentimentos, sua reflexão alimentada pela sensibilidade. E o olhar que dirige ao gênero humano se vestiu de compaixão.
Seis personagens sem nomes se relacionam mutuamente num território fechado e belamente estilizado. Um corretor de imóveis tem uma cliente, esta tem um noivo que vai sempre ao mesmo bar conversar com o barman. O barman tem o pai doente que é cuidado por uma mulher. Esta mulher é sócia do corretor de imóveis, a quem atrai perversamente. O corretor de imóveis tem uma filha. Seis figuras cujas trajetórias se cruzam e se roçam de forma tangencial, e ao sabor da sorte, ao longo da narrativa, sem que as relações entre elas cheguem a configurar um coletivo.
Este improvável esquema de relações e simetrias é posto em seqüência de situações entre dois personagens, que se repetem rigorosamente em quatro ocasiões até que se fechem seus respectivos ciclos. Vale dizer, o filme transcorre em quatro dias. Os duetos de personagens em cena vão mudando de acordo com o arbítrio de suas relações (cliente-corretor, noivo-noiva, pai-filha, chefe-subordinada, etc), formando um conjunto minimalista que permite a percepção de variações ao mesmo tempo sutis e eloqüentes, que fazem avançar a trama.
A câmera de Resnais observa estes personagens com pudor e respeito, embora a intenção seja radiografar também a mais bem guardada intimidade. No entanto, há algo em todos eles que resiste ao olhar indagador do cineasta, e por extensão ao olhar do espectador. É quando nos damos conta de que os autênticos segredos dos personagens, as dimensões mais inquietantes de suas personalidades, nos escapam sem que possamos evitar.
Os habitantes desta Paris quase imaginária vivem em espaços que revelam sua condição estilizada. Ainda que chegue a nevar no interior de um desses cenários (momento mágico, impregnado de misteriosa emoção e dádiva suprema do grande cinema), o habitat que os acolhe é parte indissolúvel do sentido da representação: quem se move nestes limites são figuras em um cenário desolado, impessoal, fantasmagórico, que descobrem aos poucos o precário equilíbrio que os sustenta.
Resnais não faz caricatura das peculiaridades dos personagens pela via do grotesco ou por qualquer outra via, e nem resolve a complexidade dramática das situações propondo uma catarse trágica que vá tranqüilizar o espectador. O mecanismo que propõe é muito mais inteligente e interessante: cobre seu drama com os aparatos da comédia, e de vez em quando, com o mais genuíno pudor, deixa que o interior digamos, mais pesado , aflore.
Desta maneira, e com recursos de cena que os olhos da platéia mais atenta vão descobrindo ao longo do processo, Resnais constrói um final onde coloca em evidência o sentido da solidão. Não faz isto com crueldade, nem como recurso egoísta ou como ato de pedantismo. O que se observa é sincero, delicado, doloroso, e por isso mesmo saudável e terapêutico. Medos Privados em Lugares Públicos é uma comédia e que ninguém duvide que em momento algum deixa que esqueçamos o quão sozinhos estamos. E por isso mesmo, como é ilimitada a capacidade de amar que possuímos.


