Curitiba - O trabalho sobre a rabeca, um instrumento semelhante a um violino, foi a última fase da vida do músico e pesquisador José Eduardo Gramani. Em 1998, em plena fase de concepção de uma vasto trabalho onde queria provar que a rabeca era um instrumento e não uma imitação, Gramani não conseguiu terminar sua pesquisa. Agora passados quatro anos de sua morte, Daniella Gramani, filha do artista lança o trabalho do pai, hoje, às 20 horas, no Cine de Curitiba.
O livro ''Rabeca, o som inesperado'' tem lançamento independente e é fruto da recuperação do material que o pai deixou engavetado antes de morrer. Daniella trouxe à tona um projeto que procurava investigar uma rica fração do universo musical brasileiro, acompanhando o trabalho de quatro construtores de rabeca, de regiões e características artesanais diferentes. Com 120 páginas, a edição vem com vestimenta luxuosa. ''Meu pai gostava de livros bonitos'' contou Daniella, por telefone, à Folha.
Quando morreu Gramani já tinha feito todo o levantamento sobre os quatro principais rabequeiros do Brasil que queria mostrar em seu livro. Mas a parte escrita ainda não havia sido iniciada. O trabalho de Daniella foi, na verdade, ''uma pesquisa em cima da pesquisa'' que o pai tinha feito. Para poder fazer uma reprodução fiel da vontade de Gramani, Daniella pediu ajuda de alguns dos principais amigos dele: Gloria Cunha, Esdras Rodrigues e Luiz Fiaminghi. Além deles, a colaboração da assistente que acompanhou Gramanni no trabalho, Ana Salvagni foi de extrema importância.
Ana percorreu com Gramani os quatro municípios brasileiros onde vivem os construtores considerados os mais importantes do Brasil: Paranaguá (PR), Morretes (PR), Iguape (SP) e Marechal Deodoro (AL). Conforme puderam constatar em todos os lugares visitados, cada instrumento apresentou uma característica singular.
''Descobrimos que existem no Brasil grandes rabequeiros e que aqui no Paraná há um foco muito importante'', conta Daniella. Segundo ela, os pesquisadores redescobriram o que o pai já tinha descoberto. Os artesãos pesquisados foram Arão Barbosa de Iguape, interior de São Paulo, Júlio Pereira de Paranaguá, região litorânea do Paraná, ''Seo'' Nelson da Rabeca do Alagoas e ainda Martinho dos Santos, também do Paraná, da cidade de Matinhos.
A idéia de acabar o projeto do pai começou a se desenvolver há dois anos, quando Daniella deu os primeiros passos em busca de ajuda e acabou conseguindo aprová-lo na Lei Municipal de Incentivo à Cultura. A empresa que repassou seu ICMS para o livro foi a Siemens. Assim as informações recolhidas, através de alguns poucos textos escritos pelo pesquisador e uma certa quantidade de fotos e depoimentos colhidos em vídeo, puderam ganhar a forma que vai ser mostrada hoje, no lançamento, no Cine de Curitiba.
''A rabeca é um instrumento. Não é uma imitação de instrumento. Não é um violino mal acabado. Não! A rabeca é outro instrumento'', esta expressiva frase do próprio Gramanni esclarece de cara sobre o teor das 120 páginas escritas agora sobre a rabeca. Apaixonado pelo instrumento, o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) já havia incursionado pelo universo das letras outras duas vezes. Ele publicou as obras ''Rítmica'' e ''Rítmica Única''. Na obra concluída pela filha e alguns dos principais amigos o teor é todo voltado para um instrumento considerado injustiçado pelo escritor.
A publicação irá mostrar fatos que evidenciam bem a insistência do pesquisador em afirmar que a rabeca era diferente do violino. Existem fotografias do processo de lutheria do instrumento, textos explicativos sobre os artesões e, ainda, algumas partituras.
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