OS CONCEITOS DE DONA MARICOTA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de setembro de 2001
Antônio Mariano Júnior<BR>De Londrina 
Fosse para comemorar com exatidão os 35 anos de carreira, Maria Bethânia deveria ter lançado o disco no ano passado. No entanto, a principal intérprete ou seria a maior cantora-atriz da MPB? escolheu 2001 para festejar três décadas e meia de uma trajetória artística marcada pela independência e coerência. Pois muito bem, ''Maricotinha'', o álbum comemorativo, já está nas lojas. Mas o lançamento oficial acontece hoje num megaespetáculo que vai reunir no Canecão, casa noturna do Rio de Janeiro, uma constelação de astros e estrelas da nova e velha guarda da MPB confira box nesta página.
Em ''Maricotinha'', Maria Bethânia resolveu ungir compositores da nova geração e compôs o repertório de um trabalho cuja principal característica é a sutileza percussiva. Ou seja, um disco conceitual, como é de praxe. Pelo conteúdo literário e melódico, ''Maricotinha'' teoricamente seria um disco cerebral. Aí é que está: fosse só uma cantora, tais versos e canções ganhariam contornos sisudos. Porém, intérprete por excelência que é, Bethânia conduz o disco pelo crivo da reflexão e intimismo, sim, mas acrescenta o que de melhor tem: o canto forte, a emoção sem rédeas, a dramaticidade chibatando racionalidades.
''Maricotinha faz 35 anos'', diz ela no meio da faixa-título, uma antiga canção de Dorival Caymmi transformada em samba-de-roda do recôncavo baiano. Outras duas regravações: ''Primavera'' (Carlos Lyra-Vinicius de Moraes) pinçada para a trilha sonora da novela ''As Filhas da Mãe'' sem dúvida nenhuma o chamariz comercial do disco. A outra releitura é ''A Moça do Sonho (Chico Buarque/Edu Lobo) extraída da trilha do festejado musical ''Cambaio'' de João e Adriana Falcão.
As demais, faixas inéditas. Feitas sob encomenda para a cantora. Mas admirável mesmo é o fato de Bethânia não ter se colocada cega e muda diante de canções de jovens compositores sem parecer oportunismo. É que as canções de Ana Carolina, Herbert Vianna, Chico César e Adriana Calcanhoto, só para citar alguns, foram redesenhadas ao seu jeito singular de cantar e pelo revestimento intimista com o qual expressa seu entender musical
Mais uma vez Guto Graça Mello assina a produção. Jaime Além, o alter ego da artista baiana, é o responsável pelos arranjos. Guitarras e teclados discretamente explorados. Naipe de cordas evocado com parcimônia. Percussão sutil talvez esteja aí a possível sobriedade do disco. A essência de ''Maricotinha'', obviamente, é romântica. E por falar em amor, é de Herbert Vianna e Paulo Sergio Valle a faixa mais bonita do disco. Chama-se ''Quando Você Não Está Aqui'', composta antes do acidente com o líder dos Paralamas do Sucesso.
Outro bom exemplo é ''Pra Rua me Levar'' (Ana Carolina/Totonho Villeroy). A bela ''Depois de Ter Você'', de Adriana Calcanhoto (compositora do coração de Bethânia), ficou um pouco comprometida com a cantora sussurando trechos da letra. Da velha guarda, Gilberto Gil comparece com ''Se eu Morresse de Saudade'', em versão abolerada. Renato Teixeira deve estar que é orgulho só com a avassaladora interpretação de ''Juntar o que Sentir''. Por sua vez, Chico Cesar pode até tentar uma releitura, mas ''Dona do Dom'', com toques indianos, já vem com a pecha de versão definitiva.
Duas participações especiais. A primeira de Caetano Veloso, num contracanto agudo, em ''O Canto de Dona Sinhá'' (Vanessa da Mata), uma espécie de toada de folia de reis. A outra é Lenine tocando violão em ''Nem Sol, Nem Lua, Nem Eu'' composta em parceria com Dudu Falcão.
''Maricotinha'', por seu teor, talvez seja o trabalho mais sofisticado de Maria Bethânia. Não esperem romantismo açucarado, músicas com refrões fáceis, arranjos convencionais. É preciso ouvi-lo com acuidade de sentidos. Não por ser um álbum difícil, mas pelo simples fato de que Bethânia, como a grande senhora da MPB, teve novamente coragem de peitar as tendências do mercado e gravar o que bem lhe convier. Uma artista que desconhece a palavra concessão quando se trata das conveniências do mercado fonográfico. Mulher de pulso firme essa dona Maricotinha da MPB...


