Os complexos relacionamentos familiares são tema de "A Música e o Silêncio"
São Paulo, 25 (AE) - Lara é uma menina com vocação para instrumentista, filha de pais surdos-mudos. Esse é o argumento inicial de "A Música e o Silêncio", filme alemão de Caroline Link, que estréia amanhã (26). A história acompanha Lara da infância ao fim da adolescência, quando ela se muda da cidadezinha do interior onde nasceu para Berlim, onde encontra mais chances de desenvolver seu talento.
Na verdade, "A Música e o Silêncio", além de ser a história de uma jovem bem-dotada do ponto de vista artístico, é também, e sobretudo, uma espécie de reflexão sobre um relacionamento complicado. Lara (na infância vivida por Tatjana Trieb e moça, por Sylvie Testud), desde pequena, faz as vezes de intérprete dos pais. Ouve por eles, fala por eles. Não raro, interpreta o que estão pensando ou mesmo distorce o que "dizem" por meio de sinais. É a ponte entre o mundo social e o silêncio em que vivem os pais.
Isso cria uma situação de ciúmes, na qual se compreende que o pai, Martin (Howie Seago), não vê com bons olhos o crescimento da filha. Acha que acabará por perdê-la para o mundo. Felizmente para ela, Lara tem uma tia, Clarissa, que toca clarineta, incentiva a menina a aprender o instrumento e representa uma via de escape para o isolamento. Dessas densas relações interfamiliares é tecido o melhor da trama de "A Música e o Silêncio". Talvez essa qualidade tenha sido decisiva na indicação para o Oscar de filme estrangeiro do ano passado.
Mas não se pode julgar uma cinematografia por uma indicação para o Oscar. Os países costumam mandar para a academia filmes que julgam capazes de sensibilizar os votantes e que não necessariamente são os melhores disponíveis. Por exemplo
dificilmente se pode dizer que "O Quatrilho", "Tieta do Agreste" ou "O Que É Isso, Companheiro?" sejam o que de mais sofisticado se fez no Brasil nos anos em que foram indicados pelo Brasil. Simplesmente eram tidos como os mais palatáveis para o cardápio do Oscar.
Por isso não se pode dizer que mesmo uma cinematografia combalida, como a alemã, tenha sido representada à altura por "A Música e o Silêncio". Isso porque, apesar da sensibilidade feminina com que a história é trabalhada, o filme não chega de fato a empolgar. Certo, a situação é inusitada, os personagens têm um pouco de espessura e algumas cenas quase chegam a emocionar.
No entanto, Caroline Link parece ter dificuldade em desenhar os relacionamentos entre personagens. Como se eles fossem mais críveis em si mesmos do que nos momentos em que interagem com outros. Essa falta de diálogo entre os agentes da trama acaba causando uma impressão de frieza e distanciamento que, é óbvio, não estava nos planos da diretora.
Outra coisa a ser dita é que, apesar do título brasileiro, não se trata de um filme sobre a música, mas sobre relacionamentos humanos. Não há incompatibilidade entre uma coisa e outra e, aliás, seria muito mais interessante articulá-las. Mas Caroline resolveu tratar a música de maneira superficial, deixando-a como pano de fundo, como se não pertencesse a uma nação que deu origem a Bach e a Beethoven.
Há um sedimento cultural europeu milenar, em ação na literatura, na música, na pintura, que tende a ser ignorado pelo cinema que se faz hoje em dia. É como uma formação reativa. Como durante muito tempo, gente preguiçosa acusou-o de intelectualizado, chato e parado, o cinema da Europa parece fazer força para tornar-se mais "popular", com tudo o que esse termo implica de suposição e preconceito. "A Música e o Silêncio" não escapa a essa sina. Arredonda as arestas, busca a emoção fácil, procura não entrar em situações complexas. Chato mesmo é isso. (L.Z.O.)





