Os cem anos do criador de Maigret
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 2003
Agência Estado 
Vários eventos estão ocorrendo em Liège, cidade natal de Georges Simenon, em comemoração ao centenário do escritor. Simenon, criador do inspetor Maigret, nasceu naquela cidade belga dia 13 de fevereiro de 1903. Morreu em Lausanne em 1989.
Há muito Simenon, durante algum tempo considerado autor menor, vem sendo reavaliado e positivamente. Hoje, é tido como escritor de pleno direito e um dos melhores em língua francesa. Deixou obra enorme. Oitenta livros tendo Maigret como personagem. Cento e quinze romances duros, como ele os chamava, fora do gênero policial. E mais 200 romances populares, que ele assinava com pseudônimo. Poucos autores foram tão publicados e poucos tiveram tantos livros adaptados para o cinema. Na verdade, Simenon atinge aquele ponto ideal do escritor popular que acaba também aceito pela intelligentsia. Prova maior disso, e grande homenagem post-mortem, é que a Gallimmard, a tradicional casa editora francesa, incluiu as suas obras na coleção La Pléiade, privativa dos autores clássicos.
Nada mau para quem era capaz de concluir um romance em 18 dias. Aliás,
ele não conseguia agir de modo diferente. Isolava-se numa casa, com provisões, máquina de escrever, tabaco e cachimbo e escrevia, dia após dia, até terminar o livro. De outra forma, a história desandava, como dizia. Ou seja, trabalhava como um remador de Ben-Hur. Difícil acreditar que dessa labuta de forçado tenham saído páginas tão boas. Páginas que escritas com rapidez e tão fáceis de ler, parecem falar tão diretamente ao leitor.
A revista Le Point relembra a efeméride em longo artigo de Jacques-Pierre Amette. Ele ensaia algumas interpretações a respeito da popularidade de Maigret. O personagem não é um tira como outro qualquer, truculento e antipático. Pelo contrário, sua atitude é, como lembra o articulista, de empatia em relação aos outros personagens.
Maigret, como Simenon, mantém uma atitude: procura compreender, não julgar. Desconfia dos ricos, dos superiores, dos juízes, dos grandes desse mundo de uma maneira geral. Olha com simpatia, às vezes com complacência para os pequenos, a ralé, prostitutas que exercem na rua, porteiros, atendentes de café, desempregados. Olha-os com simpatia, e também com atenção. É um olhar de empatia, de quem compreende o próximo, de forma humana. Mas também conhece suas fraquezas. E está lá, no exercício de sua profissão, embora não se pareça, em momento nenhum, a uma ave de rapina sobrevoando a carniça. Dessa simpatia e humanidade, características tão estranhas quando associadas à profissão, nasce a atração pública por Maigret. O articulista lembra também que Maigret ganhou cara e se parece com o grande Jean Gabin, que o interpretou no cinema.
Mas, acrescentemos, Simenon no cinema ficou associado a outro rosto, o de Michel Blanc, no maravilhoso Um Homem Meio Esquisito, de Patrice Leconte. Blanc faz um voyeur solitário, que observa sua vizinha, vivida por Sandrine Bonnaire. Adaptado do livro Monsieur Hire, um dos romances duros de Simenon, o filme põe em cena esse personagem dúbio, tímido e infeliz, profundamente humano. Simenon de ótima cepa.
(L.Z.O.)


