Os cem anos de Drummond
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quarta-feira, 30 de outubro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Um dia, alguém afirmou ou escreveu que ele era o ``poeta maior``. A definição colou. Todo mundo passou a utilizá-la ao se referir a Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), cujo centenário está sendo comemorado hoje em todo o país.
Mas assim como ele detestava o rótulo, talvez torcesse o nariz para as homenagens que lhe são dirigidas nesta data. Modesto, dizia que sua obra era irregular, passível de esquecimento após sua morte. Reservado, detestava qualquer tipo de ôba-ôba, não dando a mínima para láureas de ocasião e eventuais indicações para concorrer a uma cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras.
Só que Drummond virou, involuntariamente, uma instituição. Criticá-lo tornou-se quase uma heresia, elogiá-lo, um senso comum. Sua vasta obra, distribuída em dezenas de volumes de poesia e prosa, voltou a circular em novas edições. Na esteira da efeméride, mais uma série de ensaios inflaciona sua fortuna crítica.
Impossível que alguém, com pelo menos o ensino médio em dia, não conheça um de seus versos. Quando publicou seu livro de estréia, ``Alguma Poesia`` (1930), Drummond estava sob o impacto do movimento modernista de 1922. Levantou poeira com ``No Meio do Caminho`` (``No Meio do Caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra do meio do caminho...``) e impulsinou as controvérsias com o ``Poema de 7 Faces`` (``Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na somba / disse: Vai, Carlos!; ser gauche na vida``).
Aos poucos, ele foi incorporando tonalidades sociais, metafísicas e memorialistas à audácia modernista inicial. Para a surpresa geral, uma produção erótica póstuma acrescentou-se ao legado. Soube-se mais tarde que o sujeito austero e recatado escrevera a maioria de seus poemas picantes a uma amante, a bibliotecária Lygia Fernandes, com quem se relacionara ao longo de seus últimos 35 anos de vida.
Poetizando o cotidiano em linguagem coloquial, Drummond cativou um vasto público. Foi um poeta popular, no sentido mais elevado do termo. Em 1985, insurgiu-se numa entrevista contra o espírito da época. ``Nossa época é a do mau gosto; é uma época mesquinha, pobre. Tenho a impressão de que nós estamos recolhendo o lixo da arte, o lixo da história`` reclamou.
Não via com bons olhos a entrada triunfante da tecnologia no dia-a-dia dos cidadãos. ``Antes havia sentimento, agora só há produto e rendimento`` fulminou. Convidado a emprestar seus versos para um evento de arte e tecnologia, indignou-se com a proposta. ``Queriam que eu fizesse um poema para ser transmitido num aparelho e que deveria durar alguns segundos. Eu me recusei, porque não me subordino à máquina; ela é que tem que se subordinar à poesia e me oferecer condições de fazer a poesia como eu quero fazer`` salientou.
Avesso a badalações, o autor de ``José`` nunca teve ``vida literária``. Escondia-se no anonimato do funcionalismo público. Foi chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, durante o Estado Novo, mas jamais usou o cargo para conquistar privilégios no mundo das letras. Nunca viajou para fora do país, a não ser numa breve escapada para Buenos Aires para visitar a filha única, Maria Julieta.
Talvez por isso, por não fazer ``relações públicas`` (que hoje ganhou o nome de marketing), permaneça um autor obscuro no exterior, ainda que tenha seus livros publicados em diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Por aqui, porém, ele já entrou na galeria dos mitos nacionais. Se você nunca leu nada dele, já passou da hora de começar.


