O ator Rolando Boldrin, de 64 anos, é um colecionador de ‘‘causos’’, como o do Dito Preto. O termo, difundido por ele mesmo, designa as narrativas transmitidas oralmente, em que a veracidade dos fatos e os acréscimos de informações, em nome do humor, se mesclam. O ‘‘herói’’ geralmente é o homem do povo. Frequentemente, algum caipira esperto. ‘‘Existe sempre um desfecho, inevitavelmente engraçado’’, salienta.
Especialista em histórias divertidas e detalhadas, em que tipos brasileiros são os personagens principais, ele prepara-se para lançar neste mês, na Bienal do Livro de São Paulo, uma coletânea com cem ‘‘causos’’. Ainda sem título definido, os textos devem ser publicados pela Editora Nova Alexandria.
‘‘Gosto de partir de fatos reais, florear e encher a história de detalhes’’, revela Boldrin. Os segredos, em sua opinião, estão nas pausas e, principalmente, na visualização de cada etapa da narrativa.
Também ator e contador profissional de histórias, João Acaiabe, de 54 anos, aposta na capacidade de emocionar o espectador para chamar a sua atenção. Ele tornou-se conhecido por suas histórias no programa Bambalalão, da TV Cultura, durante sete dos nove anos em que o programa esteve em cartaz. ‘‘Para contar bem é preciso apropriar-se da narrativa, gestar (fazer nascer) a história’’, diz. ‘‘Cada um deve encontrar seu próprio jeito de narrar e é isso que procuro enfatizar nos cursos para contadores que ministro’’, acredita.
‘‘De bicho para os pequenos, de medo para os maiores, é disso que eles gostam’’, ensina a contadora Simone Grande, do grupo Meninas do Conto. As integrantes apresentam-se em escolas, livrarias, bibliotecas e festas. Trabalham com contos europeus, budistas, japoneses, lendas indígenas e publicações do folclorista Câmara Cascudo. Antes de começar uma narração, Simone costuma inventar ‘‘uma fábrica de silêncio e concentração’’ com as crianças, esfregando as palmas das mãos.
De acordo com a professora, as histórias correm mundo, como muitos de seus personagens. E sobrevivem às transformações dos séculos. ‘‘Há registros de narrativas similares no Egito Antigo, por exemplo, e no folclore brasileiro’’, diz. A história do Boi Leição, citada pelo historiador Câmara Cascudo, tem uma versão idêntica no Tibete, enquanto no interior do Ceará se conta o Abre-te Susana, muito semelhante a Ali Babá e os 40 Ladrões, de origem oriental.

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